Blog dos participantes da Oficina Crônicas: entrevistas com o cotidiano do Setor de Literatura da Fundação Cultural de Curitiba - 2010.
Mostrando postagens com marcador Tuca. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tuca. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Pra você viver mais


Alô. Alô, Fernanda? Arthur! Faz tanto tempo que já tinha até me esquecido da sua voz. A sua continua a mesma. A sua também, acho. É aquela coisa: a gente esquece, mas basta ouvir um pouquinho pra lembrar de tudo. Eu conseguiria listar algumas coisas que são desse jeito. O quê? Alguns amores, gosto de Arthur, tá me ouvindo? Tô. Você poderia falar um pouquinho mais alto, tá meio baixo aqui. POSSO. CONSEGUE ME OUVIR AGORA? Aff. Acho que era algum problema com o sinal: você quase me deixou surda. Haha, desculpa. O que você estava dizendo antes? Ahn.

Não lembro. Devia ser mentira. Devia. Bem, eu liguei mais pra dizer que fui ver uma peça hoje. Baseada na obra de Paulo Leminski.Nossa, deve ter sido boa. E foi. Lembra de quando eu descobri que ia me mudar pra cá e que pensei que, ao menos, conheceria ele? E de quando descobri que ele já tinha morrido? Sim. Seria tão legal se ele ainda estivesse vivo. 

Enfim, a peça foi no Teatro José Maria Santos. Sabe aquele do qual falei numa carta, em que vi a peça sobre Capitu? Aquele do dia em que Sim, eu lembro. Você lembra. Eu e minha mania de descrever tintim por tintim algumas sensações da nova cidade. As peças que vi, em especial, apesar de poucas. Então, essa peça foi TÃO boa que alguns minutos depois dela ter começado eu já tava chorando. O ator lá, falando das palavras, a atriz traduzindo pro francês. Ele falava de janelas abertas, de estrelas, de outras coisas tão bonitas e, de repente, olha pra mim, pra mim mesmo e perguntou: “Você vem olhar o céu?”. Eu fiz que sim com a cabeça. 

Eu anotei algumas coisas no meu caderninho. Sobre a bota rosa da atriz. Dela falando “São ótimos esses lencinhos”. Ou do outro ator, mais famoso – fez até novela – dizendo “Queria ter alguém para esperar. Mas não espero ninguém.”

Eu chorei mais algumas vezes. Uma delas quando já tinha saído da peça e que até me ajudou a aliviar um pouco de minha sinusite. Urgh.É nojento mesmo, hehehe. Pensei em tanta coisa antes de chegar em casa. Apesar do sono, queria ligar pra você. Lembrei daquela "Canção pra você viver mais".

Arthur? Tá aí, ainda?

Alô? Tô, tô aqui, sim. Hoje eu vi uma coisa na internet. Tem um site que se chama Learn Something Every Day. Hmmm, nunca ouvi falar.No dia 25 de Abril eles postaram que homens que partem o cabelo pra direita tendem a viver mais que os homens que partem o cabelo pra esquerda. Hahaha, sério? Eu posso não saber fazer uma canção, mas posso te dar essa dica, não? Valeu. O que eles falaram no dia do meu aniversário? Que anatidaefobia é o medo de que um pato esteja te observando ou perseguindo. Interessante.

E por aí vai. Estranho pensar que uma peça boa influencia seu sistema imunológico e faz você viver mais (o que torna o nome da peça, Vida!,  ainda mais significativo). E que talvez isso tenha o mesmo peso que repartir o cabelo pra direita.

domingo, 18 de abril de 2010

Tô profundo.

Quando a gente cansa de olhar pra fora, a gente olha pra dentro. É assim com os ônibus: de vez em quando ando por rotas em que não há nada pra ver pelas janelas; outras vezes, já enjoei das perspectivas repetidas e não consigo, realmente, observar nada que está fora. Daí eu leio.

Falei de “olhar pra dentro” e meu exemplo pode tê-los enganado, mas eu queria ser profundo. Porque hoje eu tô profundo, sabe? Mas ao mesmo tempo o exemplo não disfarçou muita coisa porque afinal... Sabe de uma coisa? Vou deixar de introdução: leiam!

Leminski ficou famoso por ser beberrão, comunista e pagar a conta do bar com poemas escritos em guardanapo. E por ter escrito uma lista de coisas a fazer antes de escrever "um bom poema". Vinícius também listou coisas necessárias "para viver um grande amor". (Não falei que estava profundo? Mas, melhor do que ser profundo, é sê-lo ao lado dos grandes. Num próximo texto, chamarei a ambos de Lele e Vini, tamanha a intimidade).

A professora indica uma lista de premissas interessantes para uma boa crônica: falar sobre o outono, meditar sobre as verduras da feira próxima ou exercitar a criação de diálogos verossímeis. Nenhuma dessas coisas me inspira muito. “Vai pra janela, olhar pra fora”.

Resolvo, então, olhar pra dentro. De mim e do livro de lugar-comum, como chamo meu caderno de aleatoriedades. Há de tudo aqui: aulas de francês, notas do núcleo de prática jurídica, letras de música, sonhos anotados com pressa, exercícios de estilo de tipografias, monstrinhos saindo de xícaras de café, o rascunho do início do capítulo final do romance que tentei escrever, observações da orientadora sobre minha monografia e divagações sobre amizade. Ah, há também o e-mail do curso de sânscrito para crianças.

Posso descrever a boba empolgação logo depois de sua aquisição, ainda intocado. Apesar de barato, possui contracapa em papel cartão 650g (como uma prancheta) e pauta na cor preta (a tradicional, azul clarinho, me deprime de tão feia). Ou posso digredir sobre o que tanto escrevi nele: lembrar dos dias em que me acompanhou, no bolso ou na mochila, e das ocasiões em que fiz cada anotação. Consigo abstrair dos escritos, pelo tom ou pela letra, como estava: se queria dançar ou matar o primeiro que me passasse pela frente.

Acho que o mais interessante, mesmo, é o olhar pra dentro: usando o caderno como  espelho. Ali estou eu, transcrito, dum jeito que qualquer um dotado do mínimo de loucura necessário à tarefa poderia escrever uma biografia se o roubasse. Ou fazer uma colagem teatral pós-moderna, ou, até mesmo, um romance de formação (Gente, como isso soou intelectual: combinou com os óculos que eu insisto em usar.)

Creio que seria mais fácil dizer que a última coisa escrita nele foi uma crônica. Não uma crônica comum: uma daquelas bem profundas. Começa assim: “Quando a gente cansa de olhar pra fora, a gente olha pra dentro (...)”.

Tuca.

Agradecimentos ao twitter da @vanifacts, pela tag que inspirou o título, e à @samantamanta, pelos coffee monsters que sempre desenho. =)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Calor, né?

Com duas palavras e três sílabas a conversa se inicia. O contato social mínimo necessário no tubo em que o ônibus demora a chegar. Ambos são os primeiros das filas da porta 1. Ela economizou tanta saliva ao ser amistosa:

"Pois é, né? Tá fazendo muito calor. De manhã, o tempinho fresco engana a gente, que sai com um casaco leve e um mini-guarda-chuva na mochila, mais peso pra carregar durante o dia. Chegamos no centro: aquele mormaço, nada de brisa pra refrescar. Mormaço, quentura. Quando morava em Porto Velho, a professora de biologia chamava aquilo de 'cozinhar um pudim de leite: no vapor'."

Ele olha pro lado, a fim de conferir a aceitação da anedota pela jovem de cabelos cacheados e sapatinhos vermelhos, quando se depara com um bigodudo trajando boné eleitoral e uniforme indecifrável. Continua, voltando-se pra frente.

"Estranho, né? Termos tanta palavra pra dizer a mesma coisa, digo. Um exemplo: essa semana fui a uma aula em que se discutia uma crônica do Machado. De Assis, digo. Lá pelas tantas uma palavra esquisita: canícula. A professora, astróloga, disse que era um estrela, mas uma aluna disse que era 'calor muito forte'. Tipo 'Que canícula, que inferno!', sabe? Coisa de gente velha, saber essas coisas inúteis."

Quando vira pro seu interlocutor, vê uma senhorinha de uns 75 anos, vestido florido, nariz empinado e bengala retirando-se pra fila da porta 2. Depois de um sonoro "Humpf". A mulher com bebê no colo se adianta um pouco na fila e ele segue.

"Pude comprovar minha teoria na aula de francês. Falávamos do aquecimento global, réchauffement, e do calor insuportável que fazia: canicule. Quem, logo de cara, associou com canícula? Não eu, que tinha aprendido a palavra dois dias antes, mas uma das três velhas da sala. Infelizmente, entre as diversas atividades que escolheram para mostrar o quanto são 'ativas' está o français. Logo depois a professora arrematou o assunto dizendo que a canicule matava muitos idosos franceses, o que levou os jovens do país a gritar 'Viva!' ao aquecimento global. O que achei de uma ironia refinada."

Finalmente, o ônibus biarticulado chega. E ele entra confortavelmente e sozinho pela porta 1.

 Tuca.