Blog dos participantes da Oficina Crônicas: entrevistas com o cotidiano do Setor de Literatura da Fundação Cultural de Curitiba - 2010.
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sábado, 23 de outubro de 2010

Aquele amor meu e de Vinícius de Moraes (Opus 23)

Aquele amor, na realidade, naufraga em lágrimas quando deixado e bóia nas lembranças pedindo socorro – aquele amor.
Aquele amor, quando vem com os olhos e beijos cheios de adeus, é a indiferença que foi à causa. Mas ainda se escuta o som da blusa decotada, o silêncio do sexo ardendo. O amar em excesso nos torna amantes de nós mesmos, e certo dia somos seduzidos. Pouco a pouco tudo se converte em um. Nada de par naquele amor, só outro para alimentar a razão.
Aquele amor não é único, sofre mutações quando encontrado, então se desapegue da forma e viva o que existe, goze naquele amor.
Aquele amor, mister é uma mulher só com lágrimas; pois ser com muitas, poxa! É de facada... – vão te cobrar pedágio.
Aquele amor, na forma de nove, é infinito enquanto dura. Fidelidade a prova, flores na tarde morna – aquele amor.
Aquele amor, exige tomar vinho também (com uma enochata não se arrisque!) e ser decantado entre seus lençóis – quer tudo sobre amor.
Aquele amor necessita de um cafajeste fiel, um sujeito único com muito amor – aquele amor.
Aquele amor ainda sai do peito, arde em lágrimas que marcam a face. Que perdoe assim a falta de amor – aquele amor.
Mas aquele amor agora necessita de outro homem para ser vivido o grande amor – aquele amor.

O bem que conhecemos (Opus 21)

Você sabe o bem, não é tão suportável quanto muito se ovaciona. Instala-se nas entranhas do viver por pura necessidade, ilusão. Possui uma força oculta, certo que de maldade.
Aquela bem que conhece fez de mim o melhor. Entornou-me, fez derramar do peito a emoção. Mas nenhum bem é duradouro, pois termina sempre na curva da maldade. Felicidade é o mal dos lúdicos e irônicos escritores, que geram mazelas que habitam os poros da bondade.
O bem só existe quando o mal te castiga, e a nostalgia é a maldade escondida em belos pensamentos, mata esperanças. Não existe, mas como é bom procurá-lo.
Passei uma segunda por causa dele, desparafusei as idéias. Quem me dera deixar de ser substantivo e tornar-me adjetivo. Ser alguém com o bem, não um muro de vergonha.
O bem e o amor não se impõem, acontece. O poder aquisitivo do bem fica a cada ano mais rarefeito, enquanto a emoção amadurece a fórceps. São diferentes níveis de amadurecimento que nos afasta de pessoas mesquinhas, feias de coração.
A verdade é que a visão distorce a realidade, e por momentos não somos capazes de sentir o bem. Quando se arma com a raiva afasta-se a razão, perde assim o bem que habita na alma.
A questão é que ainda sinto a placenta me envolvendo. Escuto verdades, mas o que me consola são as mentiras. Então, não tenha medo da realidade que te contorna, mas sim das sombras da falta do bem no interior.

Escrever crônica (Opus 21)

Escrever e não ler não dá o que comer dizia meu avô, e assim meio perverso busco falar ao interlocutor. Formas e detalhes característicos invadem a mão, e se desenha na mente no ato de escrever, mas basta o estalo e se pulveriza. Perco a idéia central, fujo da crônica
Deve saber que perfeição não existe, mas a linguagem por vezes trava pensamento.
Julgo ser persistente, mas o discurso que deve ser leve entorna na vírgula errada, no ponto mal acabado. O final épico sempre é desastroso.
Deve entender que ao criticar o escrito, que na maior parte das vezes é invenção, são tolices do cotidiano. O humor que se emprega pode ser emprestado de fotografias de Polaroid urbano.
Entendo que pode ficar bravo, e bravo fico se da crônica acabo em conto.
Crônica é esperança de todo escritor, que de tonto fica frouxo de desejo para escrever. Não tem forma, e é como o verão deve ser; leve e frutado. Não é bula de remédio, e se fosso remédio o seria para depressão, autismo.
Para ler deve ser fácil, mas é difícil de ser construído, imaginar. Vem de cesariana, parto pré-maturo e às vezes de combustão espontânea.
Escritores a amam, como os amores que se busca para viver, e que diga nosso amigo Vinícius de Moraes.
Ela não nasce em hospitais, mas sim das safadezas das esquinas da criação. É prazer, e sem o leitor não tem gozo.
Para outras formas de escritas até que tem receita, mas para a crônica não. Se aceita pela fé, não é ciência.
Crônica é uma mulher amando; um homem sem algo em que acreditar; tesão; um curitibano amando, curitibando; pegadinha; para seres de alma livre; um eterno amante; uma vida aberta para o desejo; uma brincadeira de criança; um exercício de felicidade.
Crônica é você leitor, que acabou de torná-la realidade.

Sobre o amor que não existe (Opus 20)

Caro amigo nem sempre somos felizes, pois felicidade é transitória. Em regime permanente somente a dúvida, e a dor que sinto corta-me o ar. A perda é sincera. O amor falso, dissimulado. Não acredite no amor, mas sim na dor; reta e fatal.
Não desejo ficar sem dor, quero vento ao rosto, viajar. Observar a arvore pela janela do carro, sonhar com um novo amor. Uma vida necessita de amor. Não quero desapontar você, mas necessito acreditar em algo para viver.
Desejo o presente da paixão, coração desgovernado. Quero a maciez dos cabelos, os beijos dela. Não permita que o tempo torne a vida árida, seca de alegria.
Um amor, uma vida e uma esperança perdida.
Amor e dor são irmãos de alma, inimigos de destino. Nunca se vive o suficiente para descantar a dor. Nunca sofremos o necessário para viver um grande amor.
Seu nome nunca se esquece, e será pronunciado pela última vez antes de morrer. Nas nuvens se deitará ao seu lado para poder aplacar a excitação desmedida da alma.
Um dia ainda se culpará pelo mal causado ao coração, mas a vida é cruel não aceita ser dividida. Compartilhar é possível, dividir não. Assim é o amor, que dure enquanto for infinito...
Tem dias que é melhor viver do que ser feliz.
Não degustarei mais meu vinho preferido, avinagrou. As lágrimas antes analisadas, hoje cortam o peito feito álcool na ferida exposta.
O rádio da alegria cessou, perdeu a estação da felicidade. A onda levou para o fundo, e não vejo a superfície, não vejo seu rosto.
Necessito oxigenar os olhos, passar um rodo nas lágrimas desobedientes. Voar pelos cantos esquecidos da lua, ignorar o sol do sorriso dela.
Necessito sim, de um beijo amigo para ignorar a verdade exposta em olhos afogados de desespero.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Suor (Opus 19)


Isolada o suor escorre frouxo pelas paredes; frio que se esvai pela natureza; pressão que asfixia a vontade; bolhas de pensamentos choram pela falta de liberdade; suor esfria escovado pelo vento; esbelta e formosa gera cede de frescor; suor que brilha pelo efeito da luz; luz covarde ataca, enfraquece; reflexos de cor vermelha, desejo; lampejos de vulgaridade, necessidade; suor banha o corpo tonto ao chegar; medo da exposição; rajadas de ar para provocar arrepio; gotas solitárias para se acariciar; não tem celulites, firme; bendita garrafa pet de framboesa que não se abre.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Estudor (Opus 18)

Sabe aquele caderno em espiral é mentiroso, mas o caderno grampeado é verdadeiro.
Os bloquinhos de anotações são depósitos de ilusões, e o marca-texto é provocação.
A borracha apaga pecados, e o grafite sempre em dúvida, é indeciso. O lápis de cor faz teatro, enquanto o guache enfeita os desejos. Papel almaço resume histórias, o editor de texto salva da sedução. Planilha de cálculo faz as contas dos beijos, e os olhos fazem as vezes do coração.
Livro é suporte do monitor que escraviza, e a impressora já está bipolar. O lixo é boa companhia para os erros do crescimento, mas o telefone é fofoqueiro, escandaloso.
Régua cansada se entorta, e a caneta seca, sem tesão.
Cadeira conforta as nádegas surradas com suor pelo medo de ficar com zero.
Os armários guardam notícias em pastas fruta-cor, e caixas pretas não se revelam.
Pincel atômico vazou de tanto rir, pelo calendário que desmaiou.
E assim, a vida fugiu do compromisso da dor.
 

Sympósion em comédia (Opus 17)

Muito fácil viver quando se tem o que beber, e se este líquido for o vinho o caminho torna-se prazer. Pretensão? Sim, pois o vinho dilata o tempo e asfalta a estrada.
Antigamente e nos dias de hoje este líquido precioso sempre é o combustível para alimentar conversas e amizades. O amigo Plat, melhor Platão, fazia boas reuniões em que as conversas eram capazes de distrair o tempo ali na Grécia Antiga. Tenho saudades das apresentações com músicas e danças feitas por escravas endiabradas (elas não bebiam). Coisa de arromba, da hora.
O vinho é a prova cabal que o tempo é contínuo canal de ligação entre a realidade visual e os sentimentos. O vinho leva a viver em quatro dimensões.
Reuniões ou encontros, seja lá o que for, são o culto as virtudes quando banhadas pelo vinho. Mas nem só virtude o vinho revela, tem as mais ridículas atitudes.
Tudo no inicio vem com carga formal de comportamento, mas aos poucos, um gole após o outro, o interior se expõe. A alma se revela límpida e cristalina, e tudo começa com sorriso de cumprimento.
Uma rodada na taça e os estágios de evolução vão se formando em cada um. O calor vai se espalhando pelo corpo, e quando menos se espera a face fica na cor de vinho rose. Aí, não se pode mais precisar quando às tontas atitudes começam. Neste momento fique atento, irá perceber vozes maiores nos cantos do encontro.
O sorriso é sempre o azeite de oliva de toda esta salada que se desencadeia.
Não existe o momento certo de parada, a maioria perde do ponto descida.
Teorias se formam por chatos que são soltos; olhos ficam com labirintite; línguas ficam escorregadias na boca; palavras batem na parede da razão, escapam da boca; alguns cheiram a água que acompanha; terremoto se apresenta em lustres que balançam.
Desculpe se não me apresentei, meu nome é Baco.

Adamastor (Opus 16)

Você, assim como Adamastor, pode viver achando que sabe de tudo, porém o que os olhos vêem é apenas passado. Quer prova, dou-lhe a mais óbvia; o sol que tanto admiramos é a imagem do que ele foi há oito minutos. As estrelas são neste momento ilusões.
Quando jovem Adamastor sabia de tudo, pura convicção. Com o passar dos anos este gigante da razão descobre que viver não é tão simples assim. Descobre outras realidades, e ao longo dos anos, com perda e ganho se verá em quatro dimensões.
No caso de nosso amigo chega a certo ponto da vida, lá onde o orgulho faz a curva, que percebe que o mundo a sua volta é muito mais que três dimensões apenas. Muito mais do que os olhos podem ver. É aquele momento onde tem o choque emocional, e descobre que o tempo não tem passado ou futuro, é tudo presente. Alguns dizem que é amadurecimento, eu vos digo ser consciência do sentimento. A consciência que a condição humana é trágica.
Adamastor vive se queixando que quando jovem tudo era mais simples, que a vida parecia fluir, o tempo mero detalhe. Pobre amigo, ainda preso as masturbações. Está com lapso de tempo.
Existem muitos perdidos ao nosso redor, pessoas que ainda não conseguiram sentir a realidade em quatro dimensões. Viver nesta realidade é perceber que o espaço onde vivemos está totalmente ligado ao tempo. Tempo não tem ordem cronológica, é um contínuo. Tempo é sentimento. Lembranças ditas do passado fazem parte de um continuo espaço-tempo: viver. O passado e o futuro habitam o nosso presente, então é tudo sentimento no aqui e agora.
Muito físico? Sim, mas interpretar a realidade não é para fracos.
Senão não tiver coragem cai fora, corte os pulos, morra.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Só para mulheres (Opus 15)

Mulheres, vocês que tanto amo, podem achar pejorativa a palavra, mas este recado é para que entendam o que se passa do lado de cá. Para nós não nasce feita, se faz com a vida.  A idade exata para tornar-se uma não existe, acontece. Nada se perde tudo se transforma.
Assim como o vinho que se movimenta na taça o andar dessa mulher possui poesia, alegria. Teve até um cara que descreveu isto como a garota de Ipanema, mas isso nos dias atuais melhorou. Seu andar não se faz com as pernas paralelas, suas pernas se entrecruzam no caminhar, um pé frente ao outro; tic, tac. Seu balanço possui um ar selvagem, mas terno e embriagante. Podemos acompanhar por horas, lembrem-se somos homens, e entendemos, como num passe de mágica, os versos do poema que se entrega pelo ar.
O fatal é o cheiro que viaja até encontrar nossas narinas roxas de excitação, devidamente comunicadas do que esta para chegar. Seu cheiro, que mais parece um complexo aromático do melhor vinho, prende e escraviza os desejos. Aí, já estamos quase rendidos, e não conseguimos ver nenhuma luz do outro lado do rio.
Perdoem a modéstia nesse momento, mas a transformação é o fato mais curioso, e devo confessar que a culpa foi nossa. Eu, mesmo com o desempenho de um Sancho Pança, já fui culpado. Sem nós não ocorreria, e sendo assim somos peça fundamental desta química. Por quê? Somos o motivo que desencadeou sua evolução.
O nocaute final é o visual. Pois é, imaginava-se que viria primeiro, e de fato sim, mas somente se completa com os outros sentidos já frouxos. Bonita vocês sempre serão depois do fato consumado. Digo dessa transformação, aquiete.
Mas deixe-me falar agora, em nome da maioria dos homens, que ao serem encantam. Encatam pelo jeito de menina sapeca que fica na sua áurea. As roupas a denunciam, como uma carta de alforria. Fantásticas nesse momento, tudo para nós fica para traz, inclusive os dias tenebrosos de TPM, e as numeras horas de espera. Só alegria que contagia, felicidade que vaza.
Hoje vemos que esta excitação adquirida independe de nós e temos ciúmes. Poxa! Tudo era para nós e agora não. Desculpem, devo me recompor, tenho de manter a forma de homem.
Vocês se transformam, por exemplo, com o sucesso de suas conquistas profissionais, e por aí se vão. Nós? Sendo sincero, ficamos como acessórios ilustres ao seu favor.
Mulheres! Não nos abandonem, ainda temos muito para dar.
O que importa é que hoje todas rumam para serem bonitas, muitas se transformando, é um mar de beldades. Até você mulher, que fica em casa com seus afazeres poderá se transformar, pois hoje são completamente independentes de nós para ser resultado desta mudança.
 Nós, aqui, continuamos com os mesmos sentidos que nos levam a chamá-las de gos-to-sas.

Curitiba (Opus 14)

Detesto Curitiba.      
Lá pela manhã, ao ir para o trabalho, já sou entubado. Aguardo poucos minutos e começo a figuração na lata de sardinha, que mais parece à embalagem daquela com molho de tomate. Vermelho. Não bastasse isso a dita condução se move feito cobra cega, ou melhor, um gigantesco minhocão. Por sorte tem um caminho único, só para ele. Imagine se locomover entre os carros nas ruas já inchadas.
Mais mudanças ocorrem e os carros aqui já estão ficando bipolares. Foram doadas rotas de fugas, melhor, os chamados binários. O que ainda é um câncer em Curitiba são os mosquitos de aço, as motos. Digo que não têm culpa nenhuma estes seres, pois são destinados aos espaços vazios entre os carros. É claro que existem os maníacos que em motos são piores que em carros, ou na direção da lata de sardinha.
Voltando aos entubados. O máximo, o clímax é chegar à UTI de integração, os terminais. Lá habitam todos os entubados: alegres, religiosos, céticos, mal humorados (grande maioria), namorados… Curitiba se acha, e hoje ninguém se encontra neste caos. Da moderna e exemplar, hoje se apresenta caótica, travada e burocrática. Findou-se a saudosa Curitiba, onde podíamos nos divertir num simples passear, num café na Confeitaria das Famílias. Hoje um vazio invade a todos.
Conta-me um amigo; o que mais lhe assombra é o espaço de tempo entre sua chegada em casa, e a chegada de sua esposa. O silêncio parece cortar feito diamante, e nesse tempo só tem a seu cachorro que nada fala. Nestas horas o tempo não se contrai, dilata. Toda agitação do dia se desfaz. O silêncio antes esperado, agora fica agonizante. É assim, hoje o vazio na cidade assusta, outrora era predominante e confortava.
               Mas como sou um inveterado saudosista tenho de confessar que amo Curitiba, pois o verdadeiro amor só existe pelos defeitos, sejam pelo excesso de beleza ou pela falta de sentido.

Memórias de criança (Opus 13)

Quando pequeno sempre fui dado a travessuras. Os corretivos assumiam diversas formas, e em certa época veio na forma de dar medo. Entrei na linha. Foram tantas as aventuras que destoa da pessoa educada de hoje.
Um clássico foi à tentativa cientifica de criança em comprovar as sete vidas de um gato. Num dia amarrei um tijolo na perna do infeliz e delicadamente o joguei rio abaixo. Pobre bicho morreu. Deduzi que as outras seis já havia gasto, e dei o primeiro experimento finalizado. Aí, mamãe me achou.
Tem uma que o meu irmão não esquece. Nos finais de tarde pegávamos a varas de pescar do papai, e sentados na varanda da casa tínhamos a pescaria invisível. No balanço, num ir e vir arremessávamos na busca do peixe imaginário. Divertíamos muito, mas eis que, quem vos fala não poderia deixar em branco. Num lance digno de cinema, a linha foi para traz e na volta cravo o anzol nas bochechas rosados de meu irmão. O pior que só percebi, quando depois de duas puxadas a linha não veio. Olho para traz e vejo meu irmão na cor branco fosco, e então minhas pernas se afrouxaram, o sangue foi tudo para os pés. Matei meu irmão! Desandei a chorar e sai correndo. Aí, mamãe me achou.
Outro dia, ovos voaram pela cozinha, era eu tentando acertar meu irmão. Brincávamos de guerra, e nossas bombas explodiam de modo a dar gosto. Teve uma que tinha até gás paralisante... Foram duas dúzias que deveria durar o mês todo. A cozinha ficou como um campo de guerra, suja que só vendo. Bem, aí mamãe me achou.
Noutra vez, final de tarde, o carreto com a lenha chegou, o que também devia durar um mês. Calma, não queimei tudo... Seu Pedro deixava em frente a nossa casa, e tínhamos que colocar para dentro do quintal. Então, eu e minha criatividade sedutora bolamos o arremesso de peso. Imagina, um perfeito atleta juvenil. Certo dia papai chegou mais cedo e nos ajudou. Eu, eu mesmo, em um de meus potentes arremessos acerto a nuca do veio, melhor papai. Vixe! Já era calvo, e toma uma paulada... Papai virou com os olhos saltando pelo rosto. Eu? Quase me mijei todo. O que fiz? Vazei. Bati em retirada, mas aí mamãe me achou.
Quando mamãe me achava não tinha escapatória.
Agora, já no ano de 2010, em visita a casa da mãe as lembranças enchem os olhos deste quarentão. A cobertura da casa acumula as provas das travessuras. Ainda está forrada de tocos de mangueira, como chicotes domésticos, a única forma de por na linha aquele menino tão inocente e puro.

Sobre o amor ou algo assim (Opus 12)

Meu nobre, naquele tempo o amor me parecia como um conto de fadas. Podia dar certo sem custos. Hoje vejo o amor como algo que nunca se torna total, não se atinge por completo.
Quando temos somos atormentados pelo medo de perdê-lo, e senão temos o medo ainda é maior, de nunca encontrar nosso pólo positivo.
Há diversas formas de amor, e uma única forma de amar é para imbecis. Mas o amor nunca será definitivo, assim como a palavra de Deus. O livre arbítrio é fatal para o amor. Acreditava que era completo como os anjos, mas Lúcifer é a prova que o amor é instável. Anjos não são santos.
O amor é o motivo de viver, e viver é incerteza. O verdadeiro Deus dos seres humanos é o amor. Não possui, e nem possuirá explicações nunca. Apenas existe e deve ser aceito como um milagre, pois é real. Sem amor não vivemos.
O amor pode mudar, basta não saber segurá-lo. Segurar o amor não é prendê-lo, é dar-lhe liberdade, é deixar que respire, é viver com o vento ao rosto.
Ainda assim, sou um imbecil. Ter um amor, só isso. Eu como escritor, e ele como meu leitor.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Mulheres bonitas (Opus 11)

Olha só, existem vezes que quero ter, mas a natureza não permite. Desejo as mulheres bonitas, daquelas que só Nelson Rodrigues sabe descrever.
Umas das conclusões da teoria rodriguiana é que as mulheres bonitas são destinadas aos inteligentes. Caso de nosso nobre amigo póstumo, o que de longe não habita minha praia. Pela lógica, sou assim um burro. Só as feias me desejam. É, é isso, e como diria Nelson, não adianta insistir: o replay é burro.
Insisto em querer, como obsessão. Aos que não gosto, persigo. Aos que amo sou frouxo de dar dó. Parece paixão pelo Fluminense, mas sou Atlético do Paraná.
Mas voltemos às mulheres. Elas são a minha condição humana para ser trágico. Quando não amo uma única, como a maioria dos imbecis, sou de todas. Não presto, mas sou adorável. Ser adorável não atrai as bonitas. As bonitas precisam de um messias, e eu sou um inveterado pecador.
A droga em minha vida são as mulheres, e por este vício entrego meu corpo como uma promessa em dia de ação de graças. O biótipo não ajuda, mas o que atrai é a condição selvagem de ser homem.
Cara bonito com mulher bonita, não se cria. Cria chifres.
Hoje não tenho mulheres, nem as feias, tenho um psicanalista. O consolo? O psicanalista é uma mulher bonita, e muito parecida com minha antiga professora.

Amante (Opus 10)


Amigo, tenho por mim que serei, em curto espaço de tempo, um defunto ilustre no fundo dos olhos daquela mulher. Ela irá relevar minhas faltas, pois vou me adaptar facilmente a seus gostos. Sou incondicionalmente cúmplice de suas vontades, desejos.
Aliado maroto a sua crise de rebeldia, deixarei acender e apagar sua chama de desejo por toda noite que puder roubar dela. Não tenho ciúmes, e sou sempre dado a amores novos. Preencho vazios. Coração não fica na ponta do medo, aproveita intensamente os segundos que não terminam. Vivo.
Amigo, espero que ela esqueça o que muitos dizem. Tenho um coração quente e sou amarrado pelo corpo. O suor das mãos dela é o tempero da minha fome.
Tá! O ibope vem aumentando, e tenho agenda cheia, mas nunca me esqueço da mulher. Ligo quando menos espera. No que faço não existe profissionalismo. Já imaginou Don Juan empregado? Não pode ser. Amo todas as mulheres, e transformo suas necessidades escondidas em atrevimentos reais.
Dou flores na tarde morna; beijos na nuca; trago arrepios que se espalham no corpo dando a notícia da paixão; fogo; falo na hora exata de sua vontade; beijo; ser dela quando estivermos sós; forte na medida certa; gozo; cafajeste para corromper honestamente o coração; deixar o tempo para os outros e dar-lhe vida; intensidade; morder os lábios carnudos dela e transformá-los em beiço pronto para o choro quando partir; fazê-la sentir-se criança querendo mais, e mais, e mais.
O romance pode escrever nossa história, e a novela que veja em casa.
Eu? Sou uma crônica: leve, ligeiro, alegre e sedutor.
Amigo, aquilo de querer, ainda me levará até ela.

domingo, 9 de maio de 2010

Só pra macho (Opus 9)


Se for mulher cai fora, isto não tá sendo contado para você. A conversa aqui é de homem, melhor, macho.
Amigos da confraria, fato ficou corriqueiro, mas tá enchendo o saco. Tenho de alertar.
Nedsmar, amigo lá do boteco do Creison, deu prova verdadeira que nosso mundo de macho virou vila.
Sei que todos conhecem Creuzete, a empregada dos 1003, lá do prédio da Camélias. Tremenda sem vergonha, mas gostosa de ver.
Depois de tanto empenho para cima da dita, o cara quebrou o gelo da guria. O ataque da vitória foi à oferta de uma média com pão de queijo na panificadora do Tadeu. E deu certo, ou melhor, não deu.
Cara imagina que de quatro não, só de cavalinho com direito a tapa. Peito do Nedsmar tá vermelho que vi. Não teve direito nem de segurar no grenho da desgramada.
O resto não me contou, mas da pra imaginar com as gurias mandando cada vez mais.
Amigo macho, cuidado! Leve creme no bolso para evitar assaduras.

Princípio da incerteza e tia Mira (Opus 8)

Vem notícias além mar, mais precisamente de Werner Heisenberg, que a exatidão é questionável. Pela física quântica quando se deseja encontrar a posição de um elétron, altera-se forçosamente sua velocidade. Logo, quanto mais se deseja a precisão de uma grandeza, menor será a precisão da outra.
Como não sou físico, a tradução é de um enxerido, mas nem por isso inexata. Acredite. Agora, olha só, devo confessar que isto não tem novidade nenhuma. Lá na minha terra, de onde venho, à tia Mira já havia profetizado tudo isso que a ciência hoje vem fazer. Tia Mira é sabida que só vendo.Vamos às provas cabais dadas pela tia.
É de fato simples. Quando uma pessoa está amando, não terá a certeza do sentimento da outra. Assim, nas palavras da tia, é que numa hora corremos atrás, em outra correm atrás da gente.
Mas o que a ciência ainda não sabe, e que só a tia profecia, é que existe sim a possibilidade da precisão das duas grandezas, ou melhor, dois sentimentos. Existe um momento único onde se encontram. Tal fenômeno reza os escritos da tia, é o dito principio da incerteza. Os sentimentos quando harmonizados se amplificam tanto que se cria uma nova vida. É isso, surgem os nenéns. Eles são a prova final da continua incerteza da vida. Viu é simples, não? O problema é que os físicos ainda não tiveram os filhos, diz tia Mira.
Controvérsias existem, mas a tia ainda continua, entre uma tricotada e outra.
Os filhos são a sólida personificação da incerteza que se perpétua, e nisso a tia diz que os físicos já conseguiram chegar, só que ainda não entenderam a própria razão de existir a física. Ainda não encontrarão a equação que define a reação momentânea da exatidão de duas grandezas.
Nossa! Tem horas que a tia é f... difícil de entender, mas os físicos também.
Então, segundo a tia somos todos resultados da incerteza e os físicos também, e diria por fim a tia:
– Guri, não deixe que a modernidade diga tudo o que tem de fazer. Eles sim, não têm certeza de nada.

Ciúme do vizinho do 1003 (Opus 7)

Vem cá, olha só como é a vida. Moro no apartamento 1103, da rua das oliveiras, número 100, o que perfaz uns 10 anos no próximo mês de julho. Faz é frio neste mês de junho em Curitiba, e se demora sempre um pouco mais no banheiro.
Dia desses não pude resistir, pois os vizinhos falavam alto, e pela tomada de passagem do banheiro (apartamento 1103) se escuta quase tudo o que acontece no apartamento 1003 abaixo. Eis o que ouvi:

“- Você está bonita hoje.
- Imagina, são seus olhos.
-Estranho, tem algo diferente em você hoje.
- Puxa, você me deixa sem jeito assim.
- Suas unhas estão perfeitas, sensuais.
- Fiz do modo como você gosta, a francesinha.
- E teu sorriso está radiante.
- Estou feliz, dormi bem...
.
.
.
- Seus cabelos estão com um cheiro tentador.
- É o condicionador que sempre uso.
- Onde vai?
- Ao trabalho... hoje tenho um café da manhã...
Apresentação para um antigo cliente.
- E precisa ir deste jeito?
- Como deveria ir?
- Sei lá, mas não precisa ser tão produzida.
Levou quase uma hora na frente do espelho.
- Você vê maldade em tudo.


- Não, só vejo os fatos.
- Que tal o fato que amo você. Não basta meu que-ri-do?
- Sim, mas é que hoje...
.
.
.
- Não me espere cedo hoje vou sair com as amigas...”

Senti a porta bater, e o som do bater do salto dela sumir apartamento adentro. Presumi, vai em direção a porta.
Como já estava de saída dou beijos na amada Amélia, que estava na cozinha, e tomei meu caminho. Fui à garagem pegar o carro, e eis que para minha não tão previsível surpresa; vejo quem? Quem? Ela, a vizinha do 1003.
Cara! A mulher tava linda, muito... foi mais do que um simples algarismo.
Vestia um conjunto social em vermelho, com blusinha branca, em que podia se ver as montanhas em pleno “V” de vitória, e como dizem os bons escritores, com um olhar dissimulado a la Capitu. O cheiro de fêmea sobrava. Apressada, como num trote, seus cabelos loiros seduziam e excitavam como o balançar de uma mulata.
Confesso, deu foi ciúme do vizinho do 1003, depois dó.

Ressurreição em vida (Opus 6)

Ontem estive a ler algumas notícias do jornal local, e o que é comum, fora poucas notas de felicidades tinha as constantes notícias de tristezas. Desta vez tratava-se da forte chuva que assola o Rio de Janeiro neste mês de março, com muitas pessoas desalojadas, perda de bens e entes queridos. Vem a tona, mais uma vez, que a vida é decididamente irruptiva.
Frente a tanta desgraça, que normalmente encaro com  serenidade e pesar, não sei, mas isto levou-me a refletir sobre minha morte, e tive a terrível constatação que venho morrendo aos poucos. Sou morto um pouco a cada instante pelas responsabilidades assumidas, pelas exigências perfeccionistas,... Esqueci de viver, de não perder tempo com implicâncias tolas. Quando isto se descobre, ou se toma consciência do fato, o impacto é semelhante ao que nossos patriotas sofrem no Rio. Os muros caem com  a enxurrada de lama que sempre viveu sobre nossas cabeças.
Dou-lhe provas. Hoje, a schnauzer de casa não passa da porta da cozinha, e sempre olha-me com medo. Quando o chamo, vem, mas vem de cabeça baixa, e devo dizer-lhe que parece uma saudação ao rei – estou me achando hen! Agora, quando vejo sua imagem em meus pensamentos, penso que o cachorro sou eu. A empregada, esta se apavora quando vou falar sobre as tarefas da casa, isto porque é somente a diarista e vai duas vezes por semana. Imagine o que não deve pensar de mim – “esse arrogante, vou botá-lo para lavar a privada... ninguém merece um cara assim.“. Meus filhos? Melhor não comentar, não admito ninguém se metendo com eles. Fique na sua. Tenho assim uma necessidade extrema de cuidar de tudo.
Estou sim, suicidando-me.
Pois bem, vou tratar da ressurreição em vida, pelos menos para à esperança de ir ao céu. Ter, pelo menos, direito da passagem no purgatório. Nada de deixar as coisas para depois, e os aborrecimentos vou engolir com a poesia, um sorriso. Vou dar atenção ao porteiro quando diz que a placa de meu carro é do seu ano de nascimento. Vejam só, coincidência, e eu que achava o cara velho...

A manhã de cada dia (Opus 5)

Adoro as manhãs, lá por volta das seis horas em diante. Aquele momento dá-me prazer, e não poderia ser diferente. O Cara foi genial, e é a melhor forma de iniciar o dia depois de dormir. Já imaginou despertar em plena três horas da tarde, no caos, ninguém merece. Certo que existem aqueles fora da curva, mas aí são outros quinhentos... As manhãs são silenciosamente confortantes.
Espero eu, que o dia em que as manhãs não mais vierem, que meu despertar seja junto a um monte de virgens lá no paraíso. Sonho? Talvez, mas também jogo na loteria e daí. Bom, melhor não. Imagina um monte de virgens, com aquele cheiro forte de necessidade. Virgens, como as mulheres, são todas doidas de paixão, não vou dar conta. Melhor, mas melhor mesmo, será uma única anja não virgem. Está difícil, então volto, a ficar com as simples manhãs que o Cara me deu e pronto. Volto para o silêncio do inicio do dia.
O silêncio da manhã é um discurso da natureza para se refletir, para dar-se a liberdade de cometer loucuras inofensivas, mudar detalhes no viver. O negócio é exercitar, nem que seja hoje comer ovo mole em vez de duro, nem que seja ouvir uma musica, como The Guitar Man, e chorar de rir pelas lembranças.
As manhãs permitem um novo começo, mas não se emocione tanto assim, isso não é para tristeza.
Lasco-lhe provas. Certo dia, a caminho do trabalho, a pé, vejo o casal indo a seu destino. Pessoas simples, ela com uma bolsa a tiracolo, e ele com uma pasta na mão escrita Metalúrgica Padrão. Andavam com umas caras de pão amanhecido, amassadas. Eu observo-os como é de costume, estava indo a confeitaria. Ambos olharam para o lado esquerdo, depois para o direito e seguros atravessaram a rua num ritmo um pouco mais acelerado. Ao chegarem próximo ao ponto de ônibus, como se fosse o fim de uma viagem, ele mansamente procura no vazio daquela manhã a mão dela. Ela, levantando seu olhar morno, lança um olhar de sorriso, fica surpresa. Pude sentir uma alegria que brotou naquele rosto.
Percebo então uma loucura inofensiva. Loucura que em um mínimo instante muda um viver, e que não só a eles, mas a mim fez bem.
Então é assim, lá pela manhã, pelo meu despertar, desejo ser o único homem na festa, ser como Armando Nogueira, amante de Nossa Senhora. Fico bem, e desejo que o esportista da crônica dê um toque em nossa pretendente... que o amigo fique bem.

Diabas (Opus 4)

Muitos cronistas já receberam a visita do diabo, “o coisa ruim”, a besta. Não uma, ou mais vezes, que se pareceu elegante e eloqüente. Para mim, chegou-se na forma da vingança das mulheres não correspondidas.
Meu senhor, te digo, é a forma de maior tortura do deus zebu.
Comprei cigarros e cai fora. Tinha outra paixão. Julga que é a decisão mais acertada? Errado, pois antes tivesse dito algo, mesmo que fosse para uma função fática de linguagem. Mas não, a anta aqui deu o silêncio. O silêncio é a oficina do diabo, e em mulher largada isso é um vulcão explodindo.
Mulher se entrega totalmente, não vê limites quando esta enamorada. Já os machos, vêem um odor diferente e o falo já responde. Mulher é linda, fiel, amorosa, mas é indomável quando não correspondida. Transfigura, chega sair fogo pelos olhos e espuma pelos cantos daqueles lábios angelicais. Dá é medo. A cura? Outro amor, mas enquanto não passa haja justiça...
Certo dia, passados alguns que julguei o bastante, a encontro na porta da igreja. Não que seja religioso, era a precaução que me fez procurar Deus... e antes fosse confissão, é às escondidas. Então, melhor correr pelado no corredor da escola com todos rindo da falta de tamanho.
Não tem argumento. Não para de falar.
- Que falta de consideração? E o que passamos juntos? Não pensou em nossos filhos? E eu como fico?...
Falar o que meu senhor. Fico ouvindo, ouvindo.... até entupir os ouvidos.
- Pare. Chega.
- O quê? Você manda parar.
- Chega, basta. Escute. Não amo mais você, tenho outra pessoa.
Tabefe... com cinco estrelas e dois passarinhos.
Ela se dirige para casa, e eu fui para a igreja, mas até aquela estátua gélida me olha com desprezo. Senti o que fiz...
Nunca mais me procurou ou falamos daquele dia. Precisava sim era ouvir, daquela boca que a beijara, que não a amava. Não o silêncio de um covarde.
Já troquei de mulher novamente, mas tapa não levei, levei foi um pé na bunda, fui largado.
A vingança? Ver o amor entregue, com um límpido sorriso de desprezo, a outro homem enquanto minhas nádegas ainda doíam.
Meu senhor, cuide-se... elas todas se comunicam, são umas diabas.