Blog dos participantes da Oficina Crônicas: entrevistas com o cotidiano do Setor de Literatura da Fundação Cultural de Curitiba - 2010.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Não use seu vício como muleta



Deve ter entupido as veias. Sobe com dificuldade no ônibus. São as veias. Chuto que é trombose. Tem até que se escorar nas muletas. Passos sofridos. “Pobre homem”, pensa a mulher que o vê marchando em sua direção. Ele está ofegante. Respira fundo e pede pra mudar de lugar. Parece que deseja ficar próximo à porta. Ela nem reflete, troca. Pobre homem. De perto, a perna aparenta estar bem inchada. Ela repara. “Muita bebida”, diz ele que sequer foi perguntado. “Bebida e cigarro”. Pobre mulher: quem manda dar atenção. Agora aguenta. “Dois anos” – vai informando – “entupindo as veias”. Aproveita, homem, e conta que retorna da Santa Casa. “A mulher me mandou embora, não aguentou mais”, destaca a criatura. Pobre das mulheres. Ele diz que não tem pra onde ir. Tampouco assunto diversificado. Tanto que consegue contar toda vida no trajeto de três pontos. No segundo ela perde o interesse nele. Muito repetitivo: “Dois anos de bebida e cigarro”. Já deu, né. Ninguém mais presta atenção nele ou em suas veias inchadas. Percorrem-se outros dois pontos. O trânsito lento do fim de tarde e os semáforos fechados do dia a dia demonstram estarem com suas veias entupidas também. Por isso, quase ninguém vê as muletas descerem. A mulher pensa: “Dois anos... todos os dias”. Não se esqueça: entupindo as veias. Ele saltita até a entrada do bar enquanto o ônibus parte. Senta e descansa a perna. Malditas muletas...

Manolo Ramires – Crônicas Curitibanas

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Village Viuvez

O prédio das viúvas fica lá pro Centro Cívico – Curitiba. Esse prédio abriga algumas senhoras de avançada idade. O que é por si só um motivo para não terem maridos. Outras até têm fisionomia de senhoritas e são mais jovens. Mesmo assim, estão sem companheiros. São ex-esposas de militares. Ex-mulheres de bancários, jornalistas, funcionários públicos e até, mal dizem, dum operário.
Que habitação incrível! Um prédio só para viúvas. Tudo bem que não é um edifício com trinta e tantos andares. Têm lá seus vinte apartamentos. Todos ocupados por esposas viúvas da silva. Até mesmo os três imóveis alugados são habitados por mulheres cujos maridos faleceram. Entende-se, portanto, que ali mulher desquitada não reside. E se há uma exceção no local, é o porteiro: casado e com netos. Mas nem ele ou tampouco sua esposa moram no prédio.
Sei bem. Você que lê esta crônica está a pensar: “é literatura fantástica! é invencionice desembestada! esse cara fumou alguma coisa! Agora vai dizer que o prédio das viúvas tem paredes roxas com faixas negras. Melhor, que o local serve de fachada para um grande bingo ou qualquer outra barbaridade”. Mas peço um voto de confiança ao meu relato. É verídico! Só não revelo o local exato por prudência. Imagine quanta gente ia querer tirar proveito dessas mulheres. Bater-lhe-iam as portas agências de turismo ou de crédito consignado, empresas de seguro ou vendedores personalite de remédios. Com má sorte, estelionatários e políticos pedindo votos ou número do RG para contratar seus mortos maridos. Todavia, te asseguro que o prédio e as viúvas existem. Quem me confidenciou foi um recenseador do IBGE. Ele até narrou alguns problemas que elas enfrentam. Cito dois para legitimar essa crônica: a falta de hospitais e de ambientes propícios de lazer.
São os casos de Dona Margarida e Dona Magnólia. Nomes inventados. Mas só desta vez. O que não é mentira é que Dona Margarida é superatleta amadora com apoio da Secretaria Municipal de Saúde. É ícone! Ela começa pela caminha de 250 metros até o ponto de ônibus mais próximo. Local que sequer tem cobertura. Depois de praticar essa modalidade aos 73 anos, carregando consigo sua asma, ela exercita a yoga ao esperar o ônibus em média 30 minutos. Seu transporte nunca passa no horário e, quando passa, não possui acesso facilitado. Vencidas as etapas da caminhada e da espera no ponto, Dona Margarida, contando com o incentivo das pessoas, se equilibra em pé no micro-ônibus para ir à Unidade de Saúde de outro bairro. Lá se foram mais 20 e tantos minutos. E chega ao Posto feliz da vida por se consultar com o gerentologista uma vez por bimestre e poder pegar o remédio popular que poderia ser entregue em sua casa, caso houvesse um programa delivery de assistência à saúde. Realmente, como apurou o amigo do IBGE, Dona Maga pratica um novo esse esporte no país. É o idosotona!
Já Dona Magnólia é mais inconformada com a situação geral. Ocorre que ela tem frequentado os bailes da Melhor Idade e têm notado que as senhoras viúvas de outros bairros estão em melhores forma física do que ela. As mulheres dançam, paqueram e se divertem como se tivessem uns cinquenta aninhos. A razão da longevidade “das rivais” deixa ranzinza Dona Magnólia. Acontece que no bairro delas existem academias ao ar livre, mas no Centro Cívico, perto do prédio das viúvas, não. Por isso, dona Margo espera que o levantamento do IBGE seja utilizado pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer como fonte de dados para que uma academia pública seja construída em seu bairro. Ai sim, ela poderá competir na categoria pé de valsa do concurso que é promovido secretamente pelo prédio das viúvas.Enquanto isso não ocorre, muitas outras historinhas poderiam se contadas sobre o prédio e suas moradoras. Mas nem a minha criatividade para embustes nem o dedo duro do recenseador nos sentimos no direito de revelar tais enigmas. Cabe, portanto, a você procurar entre o Palácio do Governo, Museu do Oscarito, Bosque do Papa, entre outros, onde fica o prédio e, quem sabe, se candidatar a marido ou a tutora...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Palavra empenhada


Noutro dia, no café em frente à loja que dirigia, a moça, ainda constrangida, narrava o fato à amiga:


- Que vergonha!


Eram dois rapazes que no dia anterior ocupavam aquela mesma mesinha. Tomavam café acompanhado de tortette de limão. Estavam descontraídos e observadores demais para uma quinta-feira à tarde. “Só podiam estar ali para me paquerar”, julgava, cativada que estava por serem bem afeiçoados. “Barbas feitas, camisas nos braços dobradas e sapatos de bico fino marrom”, detalhava. Apenas o cabelo os diferenciava: um cacheado e o outro calvo. Mesmo assim, havia um requisito que os unia: era o olhar para ela: poderia escolher!


- Que constrangimento!


Um pouco antes dos dois, ela tinha recebido outro pretendente fora da boutique. Logo ali a dois metros do café. Estava arrependida por ter lhe dado um beijo na balada. Mais do que isso: culpada de ter lhe dado o número do telefone e mencionado onde era seu local de trabalho. Consequências do álcool. Evitá-lo por causa do telefone seria fácil. Depois de registrada a primeira ligação, bastava não atender mais o celular ao ver o número indesejado. Foi o que fez até aquela quinta. Mas o infeliz, insistente, foi à loja sem consultá-la.

- Que burra!

Os rapazes repararam quando ela acendeu o cigarro. “Foi no momento seguinte em que o cara tentou abraçar minha cintura”, mostrou à amiga. O namoradinho se esforçava elogiando o curto vestido que combinava com os sapatos verdes. Mas seu empenho foi apagado por tragadas de impaciência. “Soprei fumaça de cigarro naquelas cantadas baratas”, bafejou outra vez. Ela queria mesmo era tragar seu intervalo com algum dos outros dois galantes. Como apagaria o ímpeto daquele maçante pretendente?

- Que repulsa!

Quando supôs que poderia retornar a loja, despistando o aspirante, teve a mão tomada e, sem tempo que a rejeição no rosto dela fosse percebida, que seu corpo se encolhesse por completo ou que o braço escapasse do babão, ela teve os dedos beijados. Replay: teve sua mão beijada. Tal cena inundou lhe de vergonha, constrangimento, repulsa e sensação de estupidez. Só coube-lhe despachar o galanteador e perder, consequentemente, os outros dois aspirantes: “Mulher nenhuma pode retirar a mão beijada”, expressou um. “Fazendo assim, ela demonstra que quer do romance mai$ do que a palavra empenhada”, filtrou o outro.

- Acho que tem uma possibilidade.

No outro dia, na ausência daqueles três, ela pensava se não era o caso de ligar para o moço que fez a entrevista de emprego no final do dia. “Eu tinha prometido dar a resposta positiva ou negativa sobre a vaga”, recordou aflita. E, desta vez, não seria para contratá-lo...

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Livre de Espírito

“A força de um Homem não está em seu corpo. A força de um Homem reside na alma”.


Percorria diversas escolas de Curitiba no domingo como delegado de um partido político. Eu estava acompanhado de um grande amigo, o advogado Marcelo Veneri. Juntos, estávamos incumbidos de coibir boca de urna ou qualquer outro problema que atrapalhasse a eleição presidencial. Havíamos passado por mais de vinte escolas na 3ª zonal de Curitiba. Tudo estava muito tranquilo. Sequer nos incomodava o batalhão de gente como fiscais e delegados da campanha adversária. Na verdade, a maioria estava sem ânimo para aquela tarefa. Muitos confidenciavam que a sua presença nos locais de votação se devia ao convite patronal para participar do jogo político. Era, portanto, ato de cidadania e não desvio de função. Mesmo porque o corpo estava ali, mas a mente só devia pensar no Feriado de Finados ensolarado que se perdia...

Éramos solidários a esta fúnebre celebração. Afinal, a eleição, a nosso ver, estava liquidada. Tanto que a estimativa de abstenção gerava em torno dos 25%. Eram os eleitores do candidato adversário (e alguns nossos) ou os votos nulos daqueles aquém do processo eleitoral que se depositavam na beira da praia, no copo de cerveja e na porçãozinha de camarão. Enfim, suas almas só tinham força para evadir-se do purgatório que é exercer a cidadania.
Mas, diz o Buda, a calma não existe sem a confusão. E o tumulto, que é alimentado pelo boato, ocorreu em uma escola. Marcelo e eu fomos chamados para apurar denúncia de boca de urna. Partimos para o colégio estranhando a solicitação, tendo em vista que aquele local visitado anteriormente por nós estava muito sossegado. E, chegando lá, constatamos o alarme falso. O colégio tinha menos fiscais deles à tarde do que no período da manhã. Foram dispensados da fatiga que é vigiar coisa nenhuma. Sobrando a nós só ter dó dos mesários, presentes em corpo, ausentes de espírito. Pobres almas, incumbidos a trabalhar para quem? Talvez para a senhora que conhecemos quando íamos embora do colégio. Dona Maria Oliveira Kimos, de 75 anos. A encontramos quase em prantos e visivelmente com o espírito cívico ferido. O fogo que apagava a sua chama cidadã era uma escada de pelo menos quarenta degraus. E ela, surda, cega de um olho e com grandes problemas de locomoção, era impedida pelas forças do destino (também conhecidas como falta de investimento público) de chegar até a urna. Aquela cena comoveu-nos.
Perguntei:
- “Não será mais esse obstáculo que se interporá no desejo da anciã de eleger a primeira mulher presidente”?
- Claro que não – respondeu Marcelo. Quando a alma é grande, ela erradia solidariedade e consegue forças e cooperações para além de sua capacidade.
- Se não move o mundo, pelo menos chega à urna amparada - observei.
- E, com as frágeis forças de seu dedinho - aponta Marcelo -, digita dois números para confirmar que ‘A força de uma Mulher não está em seu corpo, mas na pujança que reside em sua alma’.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Celulares em Cana

CELULARES EM CANA!



Depois dizem que o Brasil é o país da piada pronta. Ou que os brasileiros não levam algumas leis a sério. Quiçá, todas. Também pudera, nossos legisladores muitas vezes são uns fanfarrões. E nem precisam colocar peruca e bigodinho tal qual o palhaço Tiririca. Bastam fazer patifarias nas Câmaras e Assembleias. Coisas como a lei que proíbe a utilização de celulares dentro de agências bancárias. Querem evitar o crime “saidinha de banco” punindo a população. Talvez, esses doutos legisladores preferem que, na Era da Web 2.0, em que Orkut, Facebook, Twitter e outras engenhocas são atualizados por cliques no aparelho celular, as pessoas fiquem na fila a fazer palavras cruzadas enquanto esperam serem chamadas pelo caixa. Quem sabe uma partidinha de dominó? Até se joga. Na ponta do celular com tela touchscreen ou quebrando a cabeça com Sodoku.


Ocorre que a lei não “deu liga” em Curitiba. Constatei isso em uma agência bancária, logo após atender a ligação de um amigo sem me dar conta de que eu poderia ser preso ou convidado a me retirar do recinto. Afinal, eu era reincidente. Havia cometido a infração outras três vezes em cinco minutos ao ligar para minha noiva, depois receber ligação dela e, por fim, ler a mensagem que havia solicitado. Sentia-me um criminoso contumaz. Teimoso, mas não burro. Pois levaria para o xadrez comigo a moça que falava desinibida à frente e o rapaz que falava baixinho um pouco para trás. Também arrastaria comigo a mocinha que ouvia música e balançava a cabeça e o homem que tinha o queixo quase que enfiado no peito para fixar a atenção num game que não consegui identificar. Era, realmente, um bando, uma quadrilha a agir livremente sem sinal de incomodo dos outros clientes, funcionários ou vigilantes.


E se crime pouco não basta, dei-me licença para cometer mais duas sortidas infrações. A primeira foi ler a mensagem de minha noiva com o número de sua conta bem na frente do caixa. Nada fez. Nem um teco de espanto. A segunda proeza foi tirar uma foto do local com meu celular só para ilustrar esta crônica. Fui à forra! Porque em cana ninguém me leva. Sei que lá os celulares também são liberados...
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Manolo Ramires
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Endecha a Saramago


Manolo Ramires - bloginparana
Jornalista e Cronista

Naquele dia ninguém morreu. Quisera muito este cronista abrir os periódicos, visitar os obituários, abrir sítios e ver os telejornais com a notícia de que naquele dia alguém sequer partiu. Mais isso seria uma tremenda tolice como desejar a vida eterna com suas rugas, a felicidade esquizofrênica, a desumanização de Cristo ou dar um elefante de prenda via Sedex. Se ninguém morrer, natural será que ninguém vá parir neste mundo e ele, aos poucos, se transfiguraria numa monarquia de párias.

Por isso foi que naquele segundo subseqüente refleti quão importante é um ídolo nietzschiano a nos guiar por sentenças simples, com seus diálogos entre vírgulas e provocadores. A nos arrefecer com seu sarcasmo lusitano e a nos fazer agradecer pelas bofetadas em nossa mente.

E meio sem esquadro, notei que naquele minuto posterior calou em mim o silêncio para que o grito sussurrasse pela liberdade do corpo, do formato e da forma que tocasse uma sonata em sua memória. Pois naquele dia 18 de junho de 2010 ele, José Saramago, naquele dia ele morreu.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Miniconto: AVISO PRÉVIO

Miniconto
Contos de Realidade e Simulacro


Noutro dia, pegou o celular pré-pago e contou a mãe que havia conquistado o emprego, prometendo para dali 45 dias, quando possuísse primeiro ordenado completo, uma pizzada. Quem sabe uma churrascada. São só noventa dias.
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terça-feira, 1 de junho de 2010

A Síndrome de epifania de Gaga



Crônicas Curitibanas

Seu Gaga tinha um hábito comum aos cristãos católicos. Ele fazia o sinal da cruz toda vez que passava em frente duma igreja. Pra cima, umbigo, ombro direito ao esquerdo, beijinho na mão, amém! Automático quase que automato, como se levasse a mão a boca durante um espirro. Viu Igreja = assoprou amém. E tinha essa conduta por fé, por medo do padre que lhe perguntava na confissão se “reverenciavas teu Deus e teus imediatos?”, porque seu filho achava graça e para ser reconhecido pela comunidade. Nunca lhe bastava a dança das mãos. Ele sempre se fazia ouvir:

- Amém!

Até aí é tudo corriqueiro. Poucos se incomodariam com ritual tão consagrado. Alguns até repetiam a palavra. Como eu, que lembrei de ter feito muito disso diante da igreja quando era criança. Só não saudava o cemitério. Mas seu Gaga cumprimentava desde mocinho. Aliás, ele tinha cortesia com tudo e para esse tudo sempre tinha um símbolo específico. Comportamento que, com certeza, era mais curioso do que apenas saudar um monte de covas. Se ainda reverenciasse isoladamente, vá lá, todavia, o centro da cidade era pequeno e seus recintos eram muito próximos: igreja, banco, hospital, prefeitura, fórum, restaurante, concessionária automotiva e outros...
Ao sinal da igreja já fomos apresentados: testa abaixo, sobe, cruza, beija e professa. Só desconhecemos o gesto que seu Gaga faz quando passa pelo banco federal, hospital, prefeitura e outros. Primeiro, o que está mais perto da igreja é a agência bancária. Por lá ele esfrega o dedão, o indicador e fura bola em alusão ao cifrão, bate palmas três vezes e completa:

- Venha, venha!

Alguns metros dali se abraça fortemente, se encolhe um pouco e depois “explode num Xô-Xô!” para afastar as doenças que venham do hospital. Afastava as enfermidades e as pessoas. E já diante da prefeitura as atraia ao fazer um gesto de colocar os bolsos para fora, descalçar-se, estender as mãos e implorar:

- Não me venham com mais impostos!

Mas o pessoal da prefeitura, só por sacanagem, de vez em quando lhe entregava uma folha apenas com código de barras. Nenhuma cifra ou indicação de local a pagar, apenas . Muito embora seu Gaga não percebia que o tomavam por tonto Ele logo partia, fascinado que já estava pela concessionária de carros e pelo restaurante a meia quadra. O homem corria, segurava um volante imaginário, trocava marchas, esfregava a barriga circularmente e batia os indicadores em alusão aos talheres, completando:

- Vire a Bem esquerda Apetite!

E o centro terminava no Fórum. Findava mesmo, uma vez que ele foi preso após bater nos punhos rapidamente, dar uma volta sobre si dizendo “a liberdade é quadrada”. Ao insulto recebeu voz de reclusão do inexperiente promotor que alegou desacato. O homem ergueu o Código de Normas e Costumes Municipais, o baixou, bateu duas vezes com a mão espalmada, beijou o livro e sentenciou:

- Estais preso!

Que pena. Há dois quarteirões dali fica uma biblioteca.

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Manolo Ramires

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Identificação genérica


Crônicas Curitibanas

Curitiba tem dois tipos de curitibanos: os que nasceram aqui e os que gostariam de ter nascido nesta cidade. E, geralmente, os curitibanos genuínos não são tão curitibanos quanto os curitibocas. Isso ocorre porque os gestados na capital têm um olhar para o mundo. São cosmopolitas e aceitam com mais facilidade o “estrangeiro”, o gaúcho com seu chimarrão, o paulista com suas saudades, os catarinenses e mineiros que deixam suas mulheres e até nordestinos como eu. Ou seja, toda essa gente que não é curitibana nem curitiboca, pois traz convosco sua cultura e miscigenação.


O curitiboca é a pessoas nascida na região metropolitana ou o pé vermelho que simula ser da capital, inclusive falando leitê quentê, torcendo o nariz para paulistas e gaúchos e crendo que Curitiba é mais fria do que Paris. Gente como a mulher que encontrei no chaveiro/sapateiro. Ela estava a arrumar sua mala de viagem. E mal sabe ela que curitibano não conserta mala, compra outra. Já o curitiboca reforma e diz ser nova. Igualzinho a essa senhora que solicitava o serviço fiado ao sapateiro de Astorga. Ele que não é curitiboca, pois se orgulhava de sua pequena cidade. Diferente dela, ao se deparar com a vergonha duas vezes.


Na primeira, enquanto chorava desconto, fazia suas curitiboquices. “Sou preconceituosa. Não admito viadagem”. Ora, jamais um curitibano ia se expor assim, mesmo compartilhando dessa opinião. E ela seguiu informando a todos que um amigo de seu filho é gay e que sua prima é sapatão. “Deus não permite isso”, pregava enquanto o sapateiro, nem curitibano nem curitiboca, ria-se da declaração e rabiscava a ordem der pagamento.


“40 reais?”


“É o ofício que Deus me deu, senhora. Dele não se discorda. E olha que faço o preço de curitibano”.


Foi neste ponto que ela calou-se, mostrando sua segunda vergonha. Foi nesta observação que se engasgou brevemente e pigarreou:


- Sabe que fiquei uma semana soluçando quando descobri que não era Cu-ri-ti-ba-na.


Depois contou da decepção de nascer em Cornélio Procópio, diferente de suas três irmãs, invejáveis curitibanas, e de como escondia este pecado original. E, tendo desnudado a origem, partiu, no fiado, para voltar daqui uma semana, pegar e pagar a mala, espero, e viajar para Matinhos dizendo que ia para “Caiobá com sua mala da Cavezzale”.


É mesmo muito Curitiboca!


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Manolo Ramires


terça-feira, 18 de maio de 2010

As almas mortas da Assembleia Legislativa


(Esta crônica contém Hyperlinks)


Eu acredito que os deputados e diretores da Assembleia Legislativa do Paraná devem considerar Chichikov seu grande guru neste momento. E explico. Chichikov é um grande personagem de Gogol cujas qualidades são repulsivas, mas toleráveis. Afinal, Chichikov é um herói dissimulado e cretino que se esconde na capacidade de ser perspicaz, meticuloso e audacioso. A nós interessa saber que Chichikov mui habilidosamente adquiriu fortuna e fama no lombo do povo, sempre se valendo das brechas estruturais do governo e do serviço público. Algo semelhante com o que fizeram conosco agora.

Mas o que fazia esse senhor além de andar bem vestido, de ter bom diálogo em diversos extratos sociais e possuir postura que impressionava todo mundo a ponto de ninguém desconfiar de sua vida pregressa? Ele simplesmente comprava servos falecidos para, de posse dessas almas mortas, registrá-las “em seu gabinete” e requerer seus vencimentos. Uma técnica tão antiga e tão atual, mas que só agora o nosso Ministério Público atentou para isso.

Por outro lado, também há um traço muito interessante de se observar em Chichikov. É a sua desfaçatez perante o flagrante. Cinismo dele como o dos agentes da Assembleia. O personagem de Gogol estava em constante viagem por “sítios e fazendas” de gente humilde em busca de trouxas para aplicar o seu golpe. Ele contava com a ignorância e desinformação alheia – assim como os Chichikovs atuais – para agir e pouco se importar em ser desmascarado conquanto que a notícia publicada não chegue aos currais eleitorais. Em suma, torcendo para que a notícia da TV não seja vista ou entendida claramente pelo eleitor. E assim agia indiferente a ser processado, pois controlava a lei, como agem os deputados que só farão algo se perceberem-se ameaçados nos votos.

Por fim, só espero que os Bibinhos e políticos não tenham o mesmo destino fortuito de Chichikov. Ele não foi preso. Também desejo que vocês leiam o romance de Gogol e não se deixem embair na condução deste caso como ocorreu com o estúpido Selifán.

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Manolo Ramires

terça-feira, 4 de maio de 2010

Por que adoro o Lula


Por que adoro o Lula
(exercício sobre ciúmes e diálogos)

Semanas dessas fui ao interior do Paraná descansar das discussões da capital. De cara, fui ao boteco do Jeremias tomar umas cervejas no copo de requeijão. Estava com sede para ouvir os causos daquele distrito. Por sorte, encontrei com antigo amigo e compartilhamos alguns cascos e estórias. Lá pelas tantas, vendo minha embriaguez, convidou-me a dar uma passadinha na casa de um chegado dele. Íamos comer acerolas e fritar uns peixinhos. Era uma cilada. Sou doido por acerolas e peixinhos frescos fritos. Fui ao hotel, banhei-me e reencontrei o camarada no coreto. Três esquinas dali chegamos a casa das acerolas. Pé carregado daquelas frutinhas bem vermelhinhas. Fomos recebidos pelo comparsa dele de arapuca. Entramos. Despistaram. Levaram-me às frutas vermelhas e deixaram comer enquanto eles trocavam ideias esparsas. Aí, a conversa chegou à política. Subitamente raivoso, o anfitrião disparou impropérios sobre a figura de um homem que exercia fascínio sobre sua mãe. Levou-nos dali, do quintal, até o quarto onde ela permanecia na maior parte do dia.

Lá estava a senhora gorda, tranquila, serena e concentrada a admirar os retratos pregados na parede. A imagem do Cristo crucificado ao centro, a do marido barbeado à esquerda de quem observa e a de Lula empossado à direita de quem o contempla. Notei – sem ser percebido pela matriarca – que o dormitório não tinha mais nenhuma imagem, nem um pequeno porta-retratos com os filhos. Era aquela ausência que atormentava nosso anfitrião. Ao retornamos a sala, sem conter os modos, ele nos conduziu ao sofá para censurar:

– Não é uma besta, uma verdadeira anta?

Contudo, essa inflexão não teve muito fôlego. Foi interrompida pelo outro filho (no caso, filha), que trazia o café com leite a todos e defendia:

– Deixe a mãe com o Lula dela.

Mas o anfitrião não deixou. Prosseguiu a detratar a imagem de Luís Inácio de tal forma e altura que sua mãe pudesse ouvir as queixas do quarto.

– Veja este Bolsa Família, só sustenta vagabundo fracassado. E nem foi eles que inventaram.

A irmã devolveu.

– Ué, mas você não trabalha e vive à custa da aposentadoria da mamãe. E pouco importa quem inventa a lâmpada, mas quem distribui a luz para todos.

– Eu só sei que ele é um espertalhão que aproveita da ingenuidade do povo.

– Ele tira proveito da inteligência popular para enfrentar as artimanhas de lacaios.

– Nordestino analfabeto.

– Destino perseguido!

Neste ponto, tive até uma cobrinha em intervir. Sou cearense, pombas. Diria que existem áreas cuja inteligência é mais importante do que a intelectualidade, como na conciliação necessária para aquele momento. E concluiria com “estudar o amor não faz de ti um amante quando se estuda a casca e não o recheio”. Mas isso seria utopia e lirismo demais. E a política externa a Bobbio mostra que algumas pautas se vencem quando não damos importância a elas. Algo que meu amigo não lera, pois ele estimulou:

– Ah, vá lá, ele é muito simpático.

– Cafu era simpático, mas perna-de-pau.

– Se futebol e política se jogassem apenas com ternos a Itália seria imperial.

– Mas ele é um desclassificado...

– Foi preterido algumas vezes, não desistiu e virou profissional...

– Mas é um non sense...

– Você só acha isso porque por onde anda ele levanta a taça sem esquecer de suas origens

Confesso que toda essa discussão fez-me entender cada vez mais a postura da nossa senhora. Ela se cansou da incessante busca pela preferência de seus filhos. Matreiramente se ausentou deste embate tal qual eu fugia da carapuça de meu amigo – ele tentava revelar meu juízo sobre o presidente – retornando ao quarto dela. Sentei-me na pontinha da cama, observei os três quadros e tive uma sensação de descanso, harmonia e prosperidade.

– Sabe por que eu adoro o Lula? Porque a barba dele parece macia. Jeremias também usava barba quando eu o conheci. Depois tirou. Rezo para que ele não descubra meu gosto pela barba fofa do Lula. Acho que me mataria. Jeremias era da Arena.

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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Memórias


Memórias
(À minha mãe)
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A neta assiste televisão. São sete e meia da manhã. Ela está despreocupada no sofá. Sua avó desce a escada. Ela está pasma. A neta nem lhe dá bola. Mas a avó se aproxima.

- O que você está fazendo aí?
- Nada.
- E a missa?
- Esqueci completamente.

O sofá fica vazio. As pantufas são abandonadas. A escada é golpeada rapidamente. Os degraus são tocados suavemente. O armário abre-se. Uma calça jeans, uma camiseta e uma sapatilha são arrancadas das gavetas. O quarto recebe mais um corpo. O pijama é despido. A cama é sentada. As roupas são vestidas. O guarda-chuva é pegado. A escada é novamente utilizada. Aos ponta-pés. Ao balé. E o guarda-roupa, no quarto revirado, fica aberto.

Um pouco mais tarde, enquanto o carro é deslocado, lembra-se:

- Filhinha, você tirou o frango da geladeira?
- Era para tirar, vó?
- Eu não te avisei?
- Será que a Lourdes pode fazer isso?
- Você está com o celular aí?
- Alô?
- Lourdes, querida, você pode tirar o frango para o almoço?
- É pra fritar, dona?

Na igreja, a missa não anda. O sono geral toma conta. E começa a chover. O sermão parece para surdos. Mas a chuva bate o ponto de saída. O sol entra no seu turno. É o momento da comunhão. Centenas de preces são entoadas.

- Ides em paz e recordes de Deus, Nosso Senhor.

De volta à casa, o frango está bem frito, as três mulheres ocupam a mesa e o almoço está servido. Um garfo é tombado sobre o prato. A avó abaixa a cabeça. Ouve-se o choro.

- Tudo bem, vovó?
- Dona, se lembrou do sermão?
- Não, minhas queridas, deixei o guarda-chuva na paróquia.

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Manolo Ramires
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Velho Ranheta

Depois que o ministro da Saúde recomendou a prática de mais sexo para hipertensos, seu Ataúlfo se apressou em mudar de canal. Não tinha escutado direito a informação porque o ministro recomendava exercícios físicos também. Mas a expressão ‘fazer mais sexo’ lhe despertou ideias libidinosas. Percorreu duas outras emissoras e não encontrou a notícia. Talvez já tivesse sido exibida ou censurada por jovem editor. Foi somente na terceira tentativa que ouviu toda a fala de José Gomes Temporão: sexo para hipertensos.

Era com ele. Só podia ser com ele. Os sintomas eram sentidos claramente naquele sofá. E clareza tamanha só tinha um remédio: praticar. Excluiu a recomendação dos exercícios repetitivos e se concentrou na imagem do vuco-vuco. Correu até a sonolenta parceira e propôs fazerem um amorzinho. Afinal, ele estava ofegante e sentia uma pressãozinha na cabeça. Ela negou. Ele explicou que era recomendação de seu médico, o ministro. Ela riu e virou-se de lado enquanto Ataúlfo se sentia pálido.

No dia seguinte a notícia foi reprisada, o que o deixou nervoso e um pouco tenso. Teve que ir caminhar. Foi à padaria. E no balcão, diante da jovem atendente, perguntou se ela tinha assistido o jornal. “Não”. Contou a notícia. “Sério?” E fez a proposta do amorzinho. “Se enxerga, tiozinho”, ouviu enquanto o seu coração tonteava de decepção.



Mais tarde, em casa, suas mãos tremiam enquanto segurava o mouse. Na tela, os olhos turvos liam no Portal do Governo a imprudente recomendação. E saiu novamente para a rua soando frio. Entrou na lotérica, mas a fila de aposentados estava grande e no balcão havia um homem. Partiu e entrou no primeiro banco que viu. Já no guichê, disparou: “Oi, amorzinho”. Obteve como resposta risos da moça que contou ser o “terceiro cliente” dela naquele dia.

Irritado e quase chorando, retornou a casa e escreveu ao ministro o seguinte e-mail: “Escute aqui! Sou um velho tarado e quase sem esperanças que ficou mais hipertenso por causa da sua prescrição. Da próxima vez seja mais prudente e ‘combine antes com as russas’, seu Mané!”
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Manolo Ramires
blogINparana
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sexta-feira, 16 de abril de 2010

A alta costura nos binários curitibanos


Crônicas Curitibanas

A nova moda da estação em Curitiba é guinchar carros e motos. Coleção introduzida com inúmeros binários, faixas amarelas e placas ovais. Moda clean em que os modelos dos carros só estão de passagem. Sempre de desfile. Sem chance de estacionar na passarela das ruas. Mas é claro que alguns estilistas insistem – por desatualização ou estilo retrô – na paradinha, melhor, na pose. E são esses estilistas que fazem a nova coleção da Diretran ficar bem na foto.

Moda como a dos agentes de trânsito, típicos críticos de estilo e glamour. São eles que confeccionam as tendências das avenidas. Como a agente que, sorridente, chama o reboque: “Atenção, tesoura para Punto vermelho, ano 2009, flex, trio elétrico, rodas liga-leves, na Brigadeiro com a Vicente”; ou “necessito urgente de gloss para Prisma prata na Visconde”.

Geralmente, esses códigos e manuais informais são combinados durante o almoço, quando até fotos dos artigos e vestidos – carros e motos – são trocados e comentados pelos especialistas: “Eu apreendi um gol”. “Démodé”. “Eu retive um C3”. “Esse tem estilo”. “Sabe que gosto de Clios e do Ka”? “Pois eu, há dois dias, apreendi um Jetta”, contou a agente como se participasse de um evento de Versace.

O curioso nesta nova moda é o público comum que vai nos carros e motos. Ele costumeiramente não sabe aderir às novas tendências com garbo e retidão. O tal manual de etiqueta. Como no caso do homem que teve seu Mini Cooper amarelo com faixas frontais azuis pedagiado por estacionar no Centro. Corrijo a imprecisão: …teve o fraque recolhido por vestir-se inapropriadamente em passarela central. Pois não é que o lord recusou a se despir daquela avenida. Não, não era desobediência à elegância. Ele apenas rechaçava o costume do caminhãozinho que o levaria. Bateu o salto: “Meu Cooper não vai neste Agrale”. Traduzindo: “Prada não combina com moda Renner”. E ficou neste “provador” até que chegasse um guincho cujo “corte” permitisse que o seu modelito pudesse ser exibido nos novos binários da cidade. É muito fashion.

Manolo Ramires


segunda-feira, 12 de abril de 2010

A verdade veste-se de versões


Crônicas Curitibanas
A verdade veste-se de versões

Rodolfo chegou ao trabalho com o nariz queimado. Risco médio bem ao lado do olho esquerdo. Um ferimento qualquer se ele não fosse alto, loiro e de sorriso sedutor. Uma indiferente ranhura se ele não tivesse a instrução curitibana, melhor, lapiana. Rudi é daqueles típicos guris simpáticos e educados, que preservam a família e os amigos como valoriza uma montaria. Um tropeiro moderno a utilizar gel, camisa da Richards e celular touch screen. Por isso, qualquer alteração na face de Rodolfo é um desastre monumental, uma chance para questionar a sua reputação. E a verdade, meus amigos, veste-se de versões.

No trabalho foi exatamente o que fizeram. Alguns com mais ironia, outros com pitadas de maldade. Rodolfo trabalha basicamente com homens. Não revelo onde, pois as mulheres podem atrapalhar a rotinha de trabalho e porque a namorada dele não ficaria feliz. Tanto que ela foi responsável pela queimadura. Viu uma menina dar em cima de Rodolfo e partiu para acertar as contas. Rodolfo, ao tentar separá-las, levou o arranhão da ciumenta. Foi a primeira versão do dia, levantada pelo colega graduado da mesa ao lado. Rodolfo concordou.

– Tens razão.

Que nada, goza o carregador que não tem o segundo grau. Para ele, Rodolfo rasgou o nariz com anzol e inexperiência enquanto mudava de lazer em qualquer ribeirão. E o pior: tudo pra pescar lambari. Rodolfo não negou.

– Também pode ser.

Já seu chefe foi mais lógico. Não menos maroto. Rodolfo estava galopando com Fracionado quando resolveu se exibir. Pra quem, o patrão não definiu. Apenas contou a todos que Fracionado disparou pela chácara e, como é de costume, mudou a direção do galope. Rodolfo foi surpreendido, se desequilibrou, mas se manteve nas rédeas. O saldo deste cavalheiro foi o arranhão nas narinas e a vergonha diante daqueles que o chefe ainda não conseguiu definir quem é. Rodolfo não se opôs.

– Acredito que seja possível.

E as versões foram sendo criadas conforme Rodolfo percorria a empresa. Algumas com mais criatividade, outras com obviedade e hipóteses repetidas. Rodolfo teria se queimado com bituca de cigarro (três opiniões), com a haste do chimarrão (uma tentativa), arranhado pelo gato da namorada (duas), estourado uma espinha, se cortado com o abridor de vinhos (um juízo) e tido uma simples coceira.
– Não nego.
– Estava muito quente.
– Adoro animais.
– Espinha Arranha?
– O abridor pulou com a pressão.
– É, tenho alergia a lenços de papel.

Toda vez que uma nova verdade aparecia, Rodolfo concordava com ela, pois tudo isso o divertia muito, ciente que a negativa de uma versão não é coisa que um cavalheiro faça. Muitas versões sobre um fato não compõe a realidade, uma negação sobre uma versão pode abotoar a verdade. Por isso, Rodolfo foi embora para a casa dos pais esperando por mais duas suposições diferentes e únicas. Chegando lá, viu sua mãe sentada no sofá a tricotar um suéter e assistir missa do padre Reginaldo. Ela, ao ver o talho no rosto do gurizinho, se assustou, saltou e correu em direção ao filho logo o interpelando:

– Meu Rodolfinho, pra mamãezita você pode dizer o que aconteceu. Mamãe acredita.

Elas sempre creem em nossas versões.
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quinta-feira, 8 de abril de 2010

O penetra


Crônicas Curitibanas



Ele chegou ao hall do Castelo do Batel. Muito embora não tenha convite eletrônico ou timbrado. Foi durante a Domino, Valse Française de André Claveau. Ou em algum momento de Dors, Mon Amour. Alguns dançantes, distraídos com a melodia, não o perceberam. Outros espectadores logo o notaram e torceram o nariz. Poucos haviam alertado da possível petulância dele vir fora de época. Já certa parcela dos convidados utilizava como estratégia ignorá-lo. Ser frio com ele também. Aquela coisa de se escandalizar para dentro. Só que desta vez bem encolhidinhos. Alguém pergunta se não foi possível cerrar-lhe a porta, espantar, ameaçar com arma de fogo. Quem sabe uma lareira ou moderno climatizador de ambientes. Conjecturas estúpidas. Seu espectro já defenestra para dentro. Pelas portas do fundo, pelo assoalho, pelo teto, pela nesga da janela e até pelo buraco da fechadura da entrada principal. Sempre sem nenhuma faina. Um desavisado invoca urgência do maître e da hostess, da segurança e da guarda-de-rua para expulsá-lo. Mas Outono, que oferece o baile, lamenta. Informa que todos esses empregados encontram-se de braço cruzados e a esfregarem as mãos. Como se fosse uma greve por prestar serviço não combinado. “A terrível insurgência da ralé”, identifica os culpados a madame que trouxe previamente sua casimira e que acompanha o penetra escorregar pelas mesas, intimidar os homens e assanhar as damas sob seus coques. Há desconforto geral. Buxixo também. Todos abandonam elegantemente o salão principal do Castelo. Um a um, aos pares e até em ménage. Ademais do infortúnio, já se inspiram com o novo clima em uma total renúncia aos bons modos. Pensam em novas prendas e aromas. Combinam sopas eslavas com vinhos cabernet sauvignon e fondue com capuccino. Acertam presentes. Os homens pensam em jaquetas de couro nelas; as mulheres imaginam gorros, luvas e echarpes para eles. La salle est vide. A música não tem mais nota. E triunfante o penetra ressoa: “Tu invadistes as orgias do Verão, agora eu tomar-te-ei as inconstâncias dos balés”. E partiu em busca de outros salões, salas e saletas enquanto atrás de suas espaldas Outono despencava.


Manoel Ramires

quarta-feira, 31 de março de 2010

Políticos russos “alimentam”causa terrorista

Depois que duas mulheres explodiram no metrô russo, os deputados de lá querem aprovar pena de morte para terroristas. Que os terroristas tropecem em suas pretensões (sic) juntamente com essa ideia brilhante, de uma originalidade do arco daquela velha, a russa que foi pensada com vodka e sopa de repolho, diria Raskolnikoff. Quanta tenacidade desses políticos, hein, irmãos Karamazov. Mandar matar quem quer morrer. Nem um mujique seria tão esperto. Já cogitou? Os políticos institucionalizando a vontade dos lacaios. O fracassado como herói. É condenado e até pode escolher a pena. Como último pedido de vida, ele sorri lascivamente e pede para morrer amarrado a um ônibus em praça pública e com 10 quilos de dinamite. São Petersburgo pelos ares...

Punição para terroristas é pena de vida. Deixem eles vivinhos-da-silva. Uma receita é mantê-los em prisão bem arejada, tudo bem limpinho, alimentando-os bem com kulitch e água gaseificada. Pena de gozar uma vida que vale dois kopeks. E ai-ai do terrorista que não quiser comer. Injete-lhe nas veias uma lasanha, um nhoque, blinis e chá de camomila servido em samovar. Deixe-os bem alimentados. Com suplementos vitamínicos, inclusive. Mantenha a barba e divulgue a imagem deles na mídia como símbolo de bom comportamento. Isso - aos pretensos mártires - os repugnará. Para as mulheres, um pouco do mesmo, dando destaque para as unhas e cabelos soltos.

Puna-os com a vida. Não façam como no Brasil em que os presos mandam mais e estão mais seguros, mais livres e perigosos dentro da cadeia do que expostos às milícias. Eles vivenciam seu cárcere como Graciliano Ramos, como o tal Marcola, que roubou banco “para se entregar a polícia” e depois organizar o PCC.

Interessante isso. Se terrorista quer morrer e bandido quer se preso, um pune-se com a vida e outro com o quê?

Manolo Ramires
bloginparana.wordpress.com

sexta-feira, 26 de março de 2010

O pastel do mercado

“Tem aí um surpresinha”? O pedido não se deu às cegas. Ele foi feito após minuciosa observação das opções oferecidas e dos ingredientes disponíveis. Não era um investimento de alto risco como comprar ações da Petrobras diante da divisão dos royalties. Estava mais para carta-de-crédito de banco. Nada que pudesse trazer uma congestão ou repulsas palatinas nos próximos desafios.
Era um pedido simples e provocativo: “tem aí um surpresinha?” Mas a senhora ao lado pesquisava freneticamente o cardápio pendurado e não encontrava a opção. Tinha tudo do trivial, pizza, bauru, frango com catupiry e carne. Não tinha, no entanto, nenhuma referência a combinação de sabores que associasse o nome surpresinha. E a surpresa, minha gente, sempre tem como substância uma pitada de curiosidade. Por isso, a senhora ao lado como nova investidora não resiste e indaga: “onde você viu essa opção”?

Não tem, minha senhora ao lado. A surpresinha é sempre jogos aleatórios previsíveis e pré-estabelecidos. Mera figura de linguagem. Tome por exemplo um joguinho de Loto fácil. Ou mega sena mesmo. O prêmio da surpresinha é sempre uma combinação possível de 15 números dentre 25 ou de seis dentre sessenta. Você pode não controlá-los. Mas pode supô-los. E acertá-los?

A atendente do carrinho de pastel do Solar do Rosário tentou. Ela “controla os números”. Topou a brincadeira com a sugestão de que só faria o alimento surpresa se o desafiador fosse desafiado também a identificar os ingredientes. Era essa a ideia desde o começo. Mais fácil de identificar do que se a fritura das ações foi determinada pela chuva na Índia, pelo protecionismo americano, pela especulação alemã ou por avaliação errada da consultoria brasileira.

E foi-se ponto a ponto, pedaço a pedaço, mordida depois de mordida descobrindo-se o “mercado do pastel”. Nele tinha frango, orégano, azeitona e queijo. Felizmente, a combinação surpresa não constava no cardápio. No mínimo era isso que se esperava, além do preço de R$1,50 previamente estabelecido. De óbvio ululante, assim como rendimento de poupança, apenas o café com leite do grão de saca desconhecido e da teta alheia. Sem esquecer a massa, que nem com a ajuda de inúmeras análises gráficas meu paladar é capaz de distinguir: vai farinha? A senhora ao lado deve saber...

Manolo Ramires
bloginparana.wordpress.com