Blog dos participantes da Oficina Crônicas: entrevistas com o cotidiano do Setor de Literatura da Fundação Cultural de Curitiba - 2010.
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Segredos de Cozinheira

Sempre foi assim, quando mais preciso Raimunda liga avisando que vai atrasar. Dessa vez não foi diferente.

- Dona Rita, vou me atrasar hoje. Preciso passar na sortista antes de ir. Dizem que ela vai embora e tenho que passar lá pois essa é das boas. É a madame Crocodila...
- Logo hoje? Preciso que você de um jeito em tudo. "Ele" vem aqui essa noite e eu é que vou preparar nosso jantar. -A senhora vai preparar ?! Coitado do moço, que foi que ele fez?
- Não achei graça nenhuma. Vê se não demora muito, por favor.
- Fico aí essa noite pra ajudar, mas madame Crocodila tem que ler minha sorte. Assim que ela me atender vou correndo.
- Está bem. Venha rápido.

Espero. Espero. Espero e nada de Raimunda. Vou comprar os ingredientes para o jantar. Mas o que? Peixe! Claro, é um excelente prato para uma ocasião importante.
- Moço, qual o melhor peixe que tem aqui?
- Depende do gosto do freguês dona.
- Mas, se o freguês não conhece?
- Ah, então leve esse aqui. Esse é dos bons.
- É. Esse tem cara de boa gente mesmo.
- Leve que a senhora não vai se arrepender.
- Como é o nome desse ?
- É... Bem... É tainha. Tainha!
- E como se prepara tainha?
- Dizem que no forno fica ótimo.
- Obrigada!

Que bobagem é só temperar, colocar no forno, assar e servir com vinho branco. Mais fácil do que tirar doce de crianças, se fosse no tempo em que as crianças não eram bocudas. Coloco aquele pacote em cima da pia e olho aquele ser com cara de peixe morto. Faço duas perguntas: - como é que eu tempero você bichinho? Cadê Raimunda?

Três horas da tarde e finalmente chega aquela desalmada. -Dona, a fila estava enorme mas valeu a pena. Madame Crocodila é boa mesmo...
- Deixe essa crocodila pra depois e me ensine temperar essa tainha.
- Isso aí não é tainha Dona. É pescada e não ta com cara muito boa.
- Mas da pra temperar?
- Ah, pra temperar da. A senhora vai fazer ao molho, assim?
- Não! Assado.
- Aqui tem também uma receita de tainha assada. Agora é só fazer de conta que isso é tainha, que está ótima e rezar muito.
- Rezar por que?
- Olhe só a cara dele. Depois, tinha que estar temperado desde hoje cedo.
- Hoje cedo Raimunda? E porque não me disse?
- E a senhora avisou? Pensei que ia preparar aquele inhoque pré cozido.
- Me deixe a receita e por favor, de um jeito em toda a casa.
- Vou começar por seu quarto.

Começo ler e preparar. Sal a gosto. Pimenta a gosto. Caldo de um limão... Não tem, vai de laranja mesmo. Coentro. Manjericão.
-Raimunda cadê?
-Esses temperos acabaram faz é tempo.
Continuo: depois de temperado colocar ao forno com fogo brando, regado ao vinho branco. Faço tudo conforme o figurino. Prosseguindo a leitura: servir com arroz a grega e salada.

-Raimunda, você sabe preparar arroz a grega?
-Sei não dona Rita. Minha especialidade é arroz a carreteiro.Quer que eu prepare um com a sobra da carne de ontem?
-Está bem Raimunda. Prepare seu arroz e eu faço uma salada.
-Dona Rita, esse peixe ta com uma cara estranha. Um cheiro forte. E se o moço ficar com diarreia? Vai pegar mal viu! É o primeiro jantar dele aqui.
-É só colocar mais um copo de vinho branco, e ligar o forno.
-Dona Rita, é muito cedo!
-São quase sete horas. Deixe em fogo baixo que vai dar certinho o horário. Enquanto isso vou tomar um merecido banho. Preciso relaxar um pouco.

Passa-se uns quarenta minutos e Raimunda me chama. - Dona Rita! Acho que a senhora deu muito vinho para o bicho, embebedou o coitado. Ele desmanchou inteiro.

Tive vontade de gritar. De jogar aquela meleca na parede. De esganar o dono da peixaria. De enforcar Raimunda que conseguia ficar tranquila numa hora como aquela.
Mas respirei fundo e contei até cem... Então tomei uma sábia decisão e agi na maior calma. Usei do telefone.

- Amor, o que você acha da gente jantar naquele lugarzinho romântico essa noite? Estava aqui finalizando nosso jantar mas lembrei daquelas musicas... Fiquei tão emocionada!
- Claro querida. As dez está bem para você?
- Está ótimo! Até mais.

-Raimunda, amanhã quero saber tudo sobre madame Crocodila. Vou jantar fora hoje.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Confiar, mas Conferir

Vou contar uma coisa pra você amigo: fui traído descaradamente há pouco tempo. Nunca esperava por esta barbaridade mas aconteceu... E pode aguardar pois se a minha me traiu, a sua vai fazer o mesmo com você. É uma questão de tempo. Não confiem! Fiquem alertas pra não passar por situação semelhante a que passei...
Temos que nos unir, por isso vou relatar o que me aconteceu por ter depositado todos os créditos na malvada que eu vivia exibindo como ótima parceira.

A empresa onde trabalho, estava encaminhando os homens para fazer exame de próstata. Era uma campanha de prevenção.
- Não vou fazer este exame! Disse a um colega.
- Que bobagem companheiro. Hoje em dia é comum fazer este exame. Todos os homens fazem. Não tem nada de mais.
- Mas onde é que eu vou fazer isso?
- Vou lhe dar o cartão de um Urologista excelente. Um grande profissional. Além de me dar o cartão com o endereço, Astolfo, explicou o procedimento durante o exame detalhando o odioso toque retal. Mas falou também da extrema importância de fazer o bendito.
- Nem precisa me dar o cartão. Só me diga o endereço e vou lembrar.
- Tem certeza?
- Claro, minha memória é de elefante. Eu guardo tudo!
- Mesmo assim fique com o cartão: Rua 21 de Abril 2432. O telefone está em baixo.
- Está bem. Já que é pra fazer então vamos lá!

Imediatamente liguei marcando a consulta com o Urologista para aquela mesma tarde. Guardei o cartão em algum lugar sem prestar atenção onde.
Lá vou eu em direção ao consultório do especialista. Não estava com o cartão mas lembrava o endereço: Rua 24 de Maio 2342. O consultório era verde musgo com janelas altas. Entro... A recepcionista me acolhe com um sorriso. Procura meu nome na agenda...

- Tem certeza que está com a consulta marcada para hoje?
- Claro! Se não for hoje não volto mais!
- Calma Senhor! Não estou encontrando seu nome. Minha colega da manhã deve ter esquecido de anotar seu nome.
- Então vou embora. Não quero mais fazer nada!
- Calma... Faltou um cliente do próximo horário. Vou encaixá-lo.
Pediu que eu assinasse alguns papéis e entrou na sala que deveria ser o consultório do médico.
Eu tremia. Minhas mãos geladas suavam. Para relaxar mexi na carteira. Derrubei todos os papéis que estavam ali dentro. Mal deu tempo de juntá-los e ela volta sorridente: - Pode entrar. Dr. Astrogildo está a sua espera!


- Boa tarde Doutor!
- Boa tarde jovem. Pode deitar ali- disse apontando-me para um sofá estranho. -Fique calmo.
- Preciso tirar a calça?
- Contenha seus impulsos! Pode tirar os sapatos se quiser, e deite-se ali.
Sem entender nada obedeci. Tirei os sapatos e deitei.

- É a primeira vez que consulta esta especialidade?
- Sim. E já estou arrependido.
- Já desejou matar seu pai alguma vez?
- Já, aos nove anos, quando brincávamos de guerra com uma espingardazinha d'água.
- Já desejou alguma coisa com sua mãe?
- Quando era garoto desejei que ela viajasse, pra eu ir numa festa que ela tinha proibido.
- Diga tudo o que lhe vier na cabeça.
-Tudo o que lhe vier na cabeça!
- Diga tudo o que sentir vontade.
- Tudo o que sentir vontade!!!!
- Assim não dá! O Senhor está sendo rebelde!
- Eu, rebelde?!
- Está bem. Começo uma frase e o senhor completa, certo?
- Bem... Certo... Mas...
- Uso binóculo para...
- Escuta aqui Doutor, o que esse binóculo tem a ver com minha próstata?!!!
- Ideia fixa. O Senhor tem ideia fixa!
- Isto aqui é uma maluquice! O Senhor é um maluco! Eu vou embora!!!!

Saio da sala cuspindo marimbondos. Na recepção a jovem sorridente me aborda e diz:
- O Senhor deixou cair este cartão antes de entrar no consultório. Acho que é o endereço do seu Urologista.

Por isso juro que de agora em diante nunca mais vou confiar cegamente em minha memória.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A Dieta da Moda.

Sou uma daquelas centenas de pessoas que vivem brigando com o espelho e a balança. Quando me olho no espelho ele diz com ironia: - Gorda!!! - E depois de respirar fundo tomando fôlego, subo na balança e ela me fala impiedosamente: - Dois quilos a mais lindinha!

Ainda bem que todas as semanas, as revistas da moda anunciam uma dieta diferente. Já fiz todas: a dieta da melancia, a dieta da uva, a dietas dos sucos, a dieta do sorvete (sério!) e tantas outras que não lembro mais o nome. E cada vez o espelho é mais cruel e enfático: - Gorda!!! E o pior, é a sensação de culpa que fica: - Será que fiz algo errado?

Estou justamente neste doloroso questionamento, quando meu telefone toca. Vou atende-lo com toda a depressão por ter fracassado mais uma vez diante da balança.
- Alo!
- Oi, é Gabi. Acabei de aprovar uma dieta infalível!
- Já estou desanimada com essas dietas! Mas que voz estranha é essa?
- Estou fanhosa, com uma bruta gripe. Mas a dieta funciona mesmo. Perdi quatro quilos! É fantástica. Maravilhosa!
- Jura?
- Sério mesmo! Você tem que fazer!
- Mas qual é essa maravilha?
- É a dieta da minhoca.
- Como funciona?
- Você tem que pegar três minhocas na primeira noite de lua cheia, as vinte horas. Colocá-las num recipiente com água filtrada. No dia seguinte, exatamente as seis horas, devolve-las no mesmo local onde pegou e na mesma posição. Durante toda a semana, o único líquido que pode tomar é a água que elas ficaram de molho durante a noite.
- Que coisa nojenta, credo!
- Nojenta por que? Antes, você lava muito bem em água corrente e tira toda a terra!
- E funciona mesmo?
- To falando! Perdi quase cinco quilos na última lua. Aproveite hoje, pois é a primeira noite de lua cheia.
- Mas claro. Vou experimentar, não custa nada!
- Você vai sentir o resultado logo no segundo dia!
- Obrigada amiga! Agora vê se cuida dessa voz e dessa gripe assassina!
- Tá bem, vou cuidar. Beijos.

Mal desligo o telefone, e já me preparo para passar o final de semana no sítio. Melhor, vou ficar lá durante uma semana e voltar super enxuta. Com certeza, lá não vai faltar minhocas. Escrevo tudo, nos mínimos detalhes a dieta maravilhosa:
1) As minhocas devem ser retiradas as vinte horas de uma terra bem fofinha. (claro né!)
2 )Lavadas em água corrente, retirando toda a terra. (menos mal)
3) Colocadas de molho em água filtrada para uma semana, num recipiente grande.
4) No dia seguinte, ás seis horas da manhã, devolver as minhocas no mesmo local e... Na mesma posição... Mas como? Minhoca é igual dos pés a cabeça...
Ah, claro! Problema resolvido... Separei três fios de linha amarelo ouro para marcar as minhocas. Amarelo dá sorte!

Pego alguns bagulhos e me mando. Era cedo ainda. Chego no sítio no inicio da tarde. Ansiedade é imensa. Reli pela quadragésima vez a receita. Estava tudo bem claro na minha mente.
Na hora exata lá estou, literalmente catando minhocas. Seu Jerônimo, o caseiro achou estranho mas acompanhou todo o processo iluminando com uma lanterna e me protegendo com um guarda chuva imenso, porque chovia. Chovia...

Enfim acho as três maravilhosas semexentes, lambuzantes, escorregadias. Com o máximo cuidado, amarro o fio amarelo em cada uma, identificando a posição em que devem ser devolvidas no dia seguinte. Não foi tarefa fácil, mas consegui. As jovens revoltadas, foram lavadas em água corrente e imersas na água filtrada, conforme a receita.

Quase não consigo dormir. E se ela morrerem afogadas? Levanto-me a cada meia hora para dar uma espiada. Elas estavam ótimas, nadando maravilhosamente.
Finalmente amanheceu com chuva é claro. Cinco e meia já estou em pé colocando minhas companheiras num copo para devolve-las a seu habitat natural.

- Seu Jerônimo! Vamos comigo devolver as minhocas para a terra?
- Que religião é essa que a Senhora tá seguindo Dona?
Não respondo. Seria muito complicado dar todas as explicações e ainda ser taxada de maluca.

Lá vamos nós. Seu Jerônimo me protegendo com o guarda chuva, eu transportando três minhocas emputecidas. Então foram devolvidas no mesmo local e na posição marcada pelo fio amarelo. O fio foi retirado com muita luta. Pronto...

Depois deste ritual, começo a complicada dieta da minhoca. Sentia náuseas ao tomar aquela água. Mas fazer o que? Era o único líquido que podia se tomar durante a semana. Tudo por uma boa causa. Dona Filó, esposa de Seu Jerônimo, cuidou muito bem de mim. Todas as tardes, bolinho de chuva. Pão de fubá. Pamonhas.Tapiocas.Bolo de chocolate na ceia das dez. Arroz a carreteiro no almoço, e todas as delicias possíveis. E o chá de minhocas a cada duas horas...

Quando retorno do meu retiro dietético, vou correndo para a balança. Tenho vontade de gritar.
Estou com cinco quilos a mais! Decepcionadissima, ligo para Gabi:
- Aquela dieta das minhocas é uma verdadeira roubada, e além de tudo não dá certo. Ganhei cinco quilos!!!!
- De que minhoca você está falando? Ficou louca?
- Da dieta que você me ensinou!-
- Eu falei mandioca! M A N D I O C A!!!!! Você pirou?

Desliguei o telefone, p. da vida. Jurei para mim mesma que nunca mais falaria com fanhosos, ainda mais para tratar de um assunto tão sério. Agora vou esperar a próxima lua cheia e fazer tudo de novo, mas dessa vez com o ingrediente principal certo.

Mas será que bolo de milho verde pode? Vou ligar para Gabi...



Ferdinanda.


sexta-feira, 23 de abril de 2010

Herois e Heroinas.

Oi, meu nome é chapeuzinho vermelho. Ô inteligente! Claro que é meu apelido. Sempre foi, desde a época que eu era boazinha.
Mas não vou dizer meu nome verdadeiro de jeito nenhum. Nem sob ameaças de cócegas.

Sou uma menina muuuuuuuito má. Hoje vou levar alguns doces para vovozinha que mora no outro lado do bosque. Ela também não é flor que se cheire.

O que ninguém sabe que os doces, bolos e salgados são um disfarce. Na verdade embaixo de todas essas porcarias, digo, iguarias, escondo coisas muito mais interessantes.Por exemplo: pedras de crack, pacotinhos com maconha e outras cossitas do tipo.

É.Comecei cedo mesmo. No portão da escola onde estudo. E olha, que é um colégio caro. Fui iniciada diante do nariz dos diretores, supervisores da escola e sob a passividade cômoda de meus pais. No inicio, só queria ver como era a famosa viagem. Acabei gostando e não consigo mais parar.

Agora, divido tudo com vovozinha uma velha bem moderna que me incentiva no negócio. Ela me ajuda mesmo! Até para vender meu corpo quando falta grana, ela arruma uns clientes bem legais. Alguns chamam isso de prostituição infantil, mas não sou mais infantil.Tenho treze anos! Criança pra mim é até os cinco.

Meus pais nem se dão ao trabalho de saber aonde vou, com quem vou. Basta eu dar uma desculpa esfarrapada qualquer: - Vou estudar na casa da Cinderela - digo sempre.

No caminho da casa da vovó, andando pelo bosque, faço questão de deixar tudo emporcalhado. Deixo muitas garrafas pet pelo caminho, Acendo uma fogueirinha para espantar pássaros e insetos sem me importar se ela pode se alastrar.Tem um riacho onde jogo vários pacotes plásticos e vidros. Essa história de preservar a natureza é tudo balela.

Então, no meio do caminho me dá vontade de experimentar a mari joana... Vai dizer que não sabe o que é isso seu bocó? Pois vai ficar sem saber.Quando estou assim, fumando numa boa, e enchendo de fumaça tudo em volta,aproxima-se de mim aquele lobo idiota com uma conversa fiada. Eu gosto de chamá-lo de Lobobão. Antigamente, bem antigamente mesmo ele se chamava Lobo Mau.

Vejam só o papo careta do camarada:

- Bom dia menina!
- Hum...
- Você não sabe que é perigoso andar sozinha nessa floresta?
- Hum...
- Tem pessoas muito malvadas hoje em dia, que estão poluindo tudo.
- Hum...
- Onde você está indo? Na casa de sua vozinha?
- Hum...
- Você leva muitos salgadinhos e doces para ela?
- Hum...
- Tem que tomar cuidado com saúde daquela senhora! Muitos doces e salgados podem desencadear o diabetes ou aumentar o colesterol.
- Hum... (Será que o idiota não sabe que a má aqui sou eu, e o que tenho na cesta?)
- Mas a manhã já está alta. É melhor você ir andando.

Então tenho uma grande ideia. Vou pedir ajuda da vovozinha para prender este lobo.Podemos sacrificá-lo, tirar a pele e fazer um casaco. Vendendo o casaco poderemos ter mais uma graninha e incrementar nosso negócio... Bem, vocês sabem o qual né?

- Seu bobo, digo, seu lobo! Estou com medo. Você me acompanha até a casa da vovó?
- Claro Senhorita! Será um prazer protegê-la dos perigos.
- Então vamos Lobo Bom. (Idiota lobobão)

Bem, então lá vamos nós até a casa da vovozinha. Já estou com meus planos traçados.
Espero que nenhum desses insuportáveis super heróis, que ainda não viraram a casaca, estraguem meus planos: matar o lobo bom. Ou lobobão... Sei lá...


Ferdinanda.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sonhos de um cão

Sou um cachorro sem nome,sem raça, sem coleira que anda sem rumo pelas ruas de uma cidade sem coração durante as horas,os dias, as noites a vida...

Eu e meus companheiros amamos e desfrutamos a nossa liberdade. Até então, eu latia dizendo que achava divertido as grandes emoções com que nos deparamos, contando apenas com incertezas, precariedades e perigos.Mas na realidade, eu e meus amigos caninos sempre escondemos uns dos outros grandes segredos:as nossas fantasias e temores.

Agora que o tempo passou e não sou mais tão jovem, essa vida de boêmio já não me faz a cabeça. Meu momento para essas loucas aventuras passou.

Na noite passada, talvez pelo efeito do vinho que roubamos do bar da esquina e entornamos tudo de uma só vez,sonhei enquanto dormia,as vezes sonho acordado também, com uma casa linda.Era a casa dos meus sonhos:uma residência com um quintal seguro, enorme enfeitado com grandes árvores, onde crianças bem cuidadas e amadas corriam.

Tinha um jardim com flores coloridas, e diariamente algumas delas eram colhidas pela mãe dos pequenos para enfeitar a sala de estar. Um papagaio percorria livre pelas árvores, e apesar de poliglota, não era fofoqueiro e nem metido a besta.
Não faltava o cheirinho delicioso de bolo de fubá, que tornava azuis as tardes de sábado.

Nas noites frias, eu podia dormir próximo ao calor de uma lareira admirando a luz quente, acolhedora e macia do fogo.Como não podia faltar numa casa, um gato folgado dormia ronronante sobre minhas costa. Mas era bom,pois me aquecia...
No verão eu dormia na varanda olhando as estrelas. As vezes sentia a luz da lua nos olhos. Ah, isso me lembrava a rua... Mas sem saudades.

Quando amanhecia, as crianças assim que acordavam corriam dos seus quartos e eram acolhidas e abençoadas por seus pais.E depois de um farto café da manhã, iam para a escola sempre brincando comigo e me chamando pelo nome que me deram.Como é bom ter uma identidade e ser único!

Quando não tinham aulas, faziam carícias nos meus pelos negros e diziam: - venha cachorrinho, vamos passear com a gente!
Nas horas de refeições havia uma deliciosa ração composta de carne, e até um osso de sobremesa... Que delicia!

Porém acordei e triste constatei que não passava de um sonho. Mas não vou chorar.Vou secar estas lágrimas teimosas, pois dizem que o cão escolhe seu dono.
Conheço uma casa na Rua dos Eucaliptos onde mora uma menina loura com sardas no rosto.Sei que ela se chama Carmencita. Pois vou parar na frente dessa residencia e quando a garotinha sair para brincar, vou latir com todo o meu charme fazendo cara de bom bicho.

Então, certamente ela vai dizer: - venha cachorrinho lindo. Vou cuidar de você!

Assim vou conseguir viver num mundo melhor que esse mundo cão que vivo agora.
AUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU...


Ferdinanda.

domingo, 11 de abril de 2010

A Volupia do Orvalho.

A madrugada é quente. Muito quente. A lua cheia não poderia faltar nessa noite, fazendo parte do cenário e sendo testemunha ocular de tudo o que ocorreu. Olha calada cada detalhe e fleumática, misteriosa esconde o que pensa.

Estou sem um pingo de sono. Saio da cama e vou andando até o jardim. O cenário que me deparo é mágico. O perfume das flores se manifesta exacerbado. Uma brisa morna sopra suavemente me acolhendo. Tudo é tão suave...

No céu, astros azuis cintilam distantes apagados pelo brilho da lua. Alguns pirilampos vagam perto das flores. Fecho os olhos para desfrutar esse momento com toda a intensidade. Fico torcendo para que não seja um sonho, apesar de tanta beleza e paz.

Ouço então, um delicado sussurro vindo do canteiro de rosas, que fica embaixo de um cajueiro. A lua tornava todo o panorama ainda mais vibrante. Parecia um coração enorme pulsando no meu jardim em plena madrugada. Minha curiosidade vence o medo, e me aproximo silenciosa...

Vou tentar colocar em palavras o que ouvi e assisti e que sempre guardarei comigo armazenado na memória. Era um diálogo num tom calmo, afetuoso aproximadamente assim:

- Ah! Esse perfume... Esse perfume me inebria, enlouquece...
- Acho que você diz isso para todas as rosas.
- Não! Por favor... Não repita mais tal blasfêmia. Minha vida é tão breve. Você é tão linda...
- Já estou cansada de ouvir sempre a mesma coisa! Seja mais criativo.
- Eu te amo!
- Eu pedi para ser criativo! Todos me dizem isso...
- Minha vida é tão curta. Deixa-me ser feliz por um momento...
- Como poderia fazê-lo feliz? Você aí em cima...(Ri colocando a mão na boca)
- Ah, como queria por um momento apenas, desfrutar o veludo de suas pétalas. Sentir a doçura do néctar contido no seu cálice... Aspirar mais de perto o seu perfume. Seu cheiro tem um pouco, ou muito da magia dos deuses.Você é a minha deusa. Preciso de você para ser feliz por um minuto apenas...
- Hã... Tá começando a ficar criativo. Gosto de elogios. Continua...
- Sua voz é tão suave. Você é a rainha que impera nesse jardim. Pudesse eu por um segundo, me aconchegar em sua maciez... Então diria que minha vida que é tão breve valeu a pena.
- Não seja dramático! Olhe ao redor: existem muitas outras semelhantes a mim.
- É você que eu amo. É você que eu quero. É por você que nasci aqui tão perto.
- Já ouvi coisas semelhantes tantas vezes... Mas acho que ninguém falou com tanto carinho.
- É tão tarde... Por favor me faz feliz enquanto existo... Minha vida é efêmera...
- Não basta pra você, admirar-me aí de cima?
- Preciso acariciá-la com toda a ternura que guardo na alma. Senti-la perto. Deixe-me tocá-la com minha candura e leveza, assim partirei feliz.
- Então venha! - Disse a rosa vermelha entreabrindo as pétalas.

E uma brisa suave moveu delicadamente o orvalho apaixonado, da folha de cajueiro até a flor.

Não sei o que se passou ali, mas minutos depois talvez por felicidade o orvalho explode e transforma-se em centenas de partículas enfeitando todas as pétalas da rosa, que brilhava vaidosa na luz do luar.

De repente acordo com um raio de sol tocando meus olhos e sentindo cócegas no rosto. Estou deitada na grama com os cabelos repletos de folhas secas. Uma joaninha passeia na minha face enfeitando-me o nariz.

Não sei se foi sonho ou magia da lua. Nunca vou saber. Mas lá estava a rosa refestelada, despreocupada, despudorada aos beijos com um colibri.


Ferdinanda Embrião.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Que Susto!

-Parabéns!Fiquei feliz em saber que você se tornou escritora!

-Eu escritora? Não entendi!

-Pesquisei seu nome no Google, só pra ver, e tive essa agradável surpresa!

Surpresa fiquei eu, quando alguém que há tempos não vejo, e mora do outro lado do oceano me dá por telefone a noticia que sou escritora... E eu que nem sabia disso!
Claro, fui confirmar no Google e constatei que estão postadas as crônicas que escrevo como exercício das Oficinas de quinta feira.

Juro, fiquei envergonhada por não ter cogitado o óbvio, e usado um pseudônimo para me proteger por enquanto. Na minha santa inocência e empolgação, não sei exatamente como, imaginei que só teriam acesso a leitura das benditas a nossa Professora, os colegas que me ajudam crescer com comentários e críticas, e as pessoas que porventura acessassem o blog por uma curiosidade insana.

Como ainda me considero principiante na arte literária, tratei logo de trocar meu nome verdadeiro por Ferdinanda Embrião. Assim, por enquanto não serei reconhecida por outras pessoas alheias ao curso, até que adquira o traquejo peculiar e a segurança de uma verdadeira escritora.

Como sou extremamente instável, pode ser que mude de idéia assim que passe o susto de ser pega no pulo por alguém de tão longe. Talvez daqui uns dez ou quinze minutos. Não sei...

A única certeza, é que por enquanto estou em fase de gestação como cronista.Um embrião ainda. Nas próximas semanas, se tudo correr bem, serei elevada a categoria de feto.
E assim espero poder continuar me desenvolvendo e finalmente nascer bem saudável no final do ano. Se não for abortada é claro!

Nesse período gestacional, necessito de uma alimentação saudável enriquecida com muuuuita leitura, troca de idéias e aulas com nossa Professora Monica.

Ferdinanda Embrião

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Quebra Cabeça.

Vejam: agora tudo é mar e mar. Tudo céu e céu. Tudo infinitamente azul.
E a imensidão das águas é tamanha que não é possível ver a linha do horizonte. Onde está o horizonte?

Lá está a ilhazinha longínqua, isolada porém abrigando tanta vida. E já fez parte de um continente um dia! Mas por alguma razão foi depreendendo e distanciando-se. Lentamente... Continuamente...

Lenta e continuamente de forma invisível para olhos que só conseguem ver o que é macroscópio. Inaudível, aos ouvidos que não escutam os gritos do silêncio. Inodora aos olfatos que desconhecem o odor acinzentado do medo. De maneira tépida para que a desesperança fosse reconhecida por tatos inexperientes. Insípida aos paladares que não detectam o sabor das águas que pedem um olhar. Enfim, imperceptível a todos os sentidos menos aguçados que já não reconhecem os alertas do sexto sentido.

E assim foi , se afastando e avançando mar adentro o pequeno pedaço de terra que sentia-se diferente do restante do continente. E o continente por sua vez, tentava distanciá-la cada vez mais reforçando a hipótese da estranheza sem compreende-la.

A principio, deslocava-se devagar com certa cautela. Até que um dia inesperada e inexplicavelmente um furacão lançou o pedaço de terra para muito longe ao mar.
O que vemos agora é uma pequena ilha perdida no oceano.

Se observarmos com atenção, de um plano mais alto como para uma foto de vista aérea, percebemos que está protegida pelas profundezas das águas com um tom azul escuro. Porém nas proximidades, há um contorno com uma coloração mais clara e límpida, com águas serenas e mornas que convidam para um mergulho seguro. E em seu redor, existe uma praia de areias brancas e macias aquecidas pelo sol. Estão vendo?

Com certeza, em algum lugar do continente ficou faltando um pedacinho de terra, da mesma extensão e formato dessa ilha perdida no oceano. Se fantasiarmos que o local onde esteve inserida manteve-se inalterado, apesar das intervenções impiedosas da natureza, estaremos concedendo-lhe esperança de um retorno.

Mas antes de tudo é imprescindível aguardar que uma chuva mágica, revigorante caia suave e continuamente sobre a ilhota e transforme sua frágil vegetação numa floresta densa, com árvores frondosas, fortes o suficiente para protege-la de qualquer agressão. Sábias e perpicazes para alertá-la dos engodos .

Então um vento impetuoso poderá deslocá-la carinhosamente, e como num jogo de quebra cabeça acoplá-la outra vez em sua fenda.

Ferdinanda Embrião.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Autênticas Alucinações.

Amanhece antecipadamente. Apressada, ajusto aparência. Avalio. Aprovo. Atrapalhada, acolho-me aceitando apoio acordado.

Anteriormente, ambicionava aplicar aptidões adequadas: Arquitetura, agronomia, administração... Até Astronomia Astronáutica! Almejava amplas aquisições. Atualmente, assustadoras áudio ameaças atrapalham as aspirações avacalhando-me: - Aparência avolumada! Adiposa! Aloprada! Amarfanhada! Apregoam apontando-me. Agora arredia, apenas anelo anular as atitudes atrevidas.

Ariane, atenciosa assistente atenua: - Apague as acusações amada; acalme-se!
Amigas avessas aliam-se aos arrogantes anúncios advertindo-me: - Alucinações auditivas! Aquiete-se, acomode-se!

Ah! Ainda acontecem alarmantes aparições apocalípticas, aterrorizantes. Apavorada, atiro-me apelando: - Ajudem-me! Aparecem ali atrás! Avisam-me apáticos: - Ameaças ausentes! Aparentam alucinoses as assombrações... - Amigas assim? Aguço as antenas! Ajuízo aborrecida. Amargurada, ausento-me.

Ando... Aspiro aromáticas açucenas amarelas aveludadas. Apaziguo-me. Aconchego-me. Adormeço... Acompanho andorinhas. Alcanço alturas astronômicas, ares azuis, aquecidos, acolhedores. Alegre, assobio afinadíssima, agradáveis árias. Alforriada, arranco as amarras, aleluia!!! Alço aventuras agradáveis. Avisto aves: águias, albatrozes, azulões, arapongas. Até abutres... Amigos adjacentes, autênticos.

Adquiro alterações avançadas. Abro as asas, afasto-me... Absorvo ânimos autônomos. Afoita atinjo altitudes aumentadas. Abismada, avalio arrebatadora aparência azulada. Atípicos alentos aplacam-me as aflições.

Aproprio-me aristocrática alongado-me além, arremessando-me as aragens afetuosas. Alcanço altocumulos, a abóbada acarneirada. Alívio aprazível, admirável apaixona-me. Assumo absolutamente âmago alegre, arrojado amável.

Alguém aparece anunciando aos alaridos: - Acorda!!! Almoço!

Ferdinanda Embrião

sexta-feira, 26 de março de 2010

O Oráculo.

Chuva,chuva,chuva. Embora invisível, imóvel e adornada por um sol de rachar dentro de uma noite fria, a chuva evidencia impiedosamente o vazio absoluto de minha total falta de inspiração.

Procuro respostas num tal Oráculo de Mercúrio. Mas ninguém me avisou que o individuo estava em greve.Ou estava me boicotando o safado!fazendo-se de difícil ignora indagações importantíssimas e vitais:Vou ficar rica nos próximos três dias? O que tem dentro do pastel surpresinha nesta noite? Será que as crônicas que escrevi sobre a última oficina de crônicas,ficaram com jeito de crônicas ou de romance policial?

Ando no movimento solitário da Praça da Ordem... Olho Godô e vejo sua cara que de tão inexpressiva, me provoca. Não está com o mesmo ar de cumplicidade e mistério de uma estátua equina que se preza. Mudou Godô ou mudei eu? O pobrezinho, pode estar com medo de Mercúrio que se julga o deus das comunicações.Como Godô desvia o olhar, não insisto. Saio de perto e continuo em busca de respostas.

Ouço palavras soltas admiráveis e significativas para quem as diz, mas que para mim nada dizem. Frases como: "Vou num pé e volto noutro!" "Tu tá instalado em Maringà?" Enfim frases vazias como pastéis de vento.

Prossigo caminhando...Vejo figuras alegres nos barzinhos iluminados. Risos. Risos. Risos. Riem de tudo, e riem do nada. Não consigo entender o que conversam. Parecem falar num outro idioma todos ao mesmo tempo. A chuva invisível e imóvel descontrói as palavras.

Então resolvo mandar Mercúrio para um lugar que não posso falar e muito menos escrever, pois sempre me ensinaram que merda é palavrão. Volto para sala de aula e espero ansiosa por um retorno e comentário em relação aos nossos últimos exercícios.

Ah!Então era isso que no seu silêncio Mercúrio quis me dizer: "- Não vai dar tempo minha cara!"
Pois não é que o Oráculo funciona mesmo! Eu que não soube interpretar...

Ferdinanda Embrião.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Loucuras a Cavalo.

- Ô Zéfiro!!! Eu queria esse serviço pra ontem e você só me entregou hoje! Dessa vez passa...
Aproveitando a sorte do cavalo que magicamente ganhou vida pelo vento, monto sobre seu dorso de pelagem cinza brilhante e saio a galopar. Pois não é que, para minha surpresa, o danado voava! - Ainda bem! Penso depois de passado o susto. -Galopar aqui na praça da Ordem com certeza seria o maior estrago.
-Vamos cavalinho, vamos combater os animais urbanos que azucrinam tanto o nosso amigo Barba Ruiva! E felizes, lá fomos nós na noite morna, sentindo a aragem macia batendo em nossas caras de pau. Aproveitando da vantagem de estarmos muito distantes do solo pareceu covardia, mas não deixou de ser divertido.

Começamos combatendo as baratas. E que baratas! As vezes tinha dúvidas se eram baratas ou ratazanas. Eram baratas mesmo. As ratazanas segundo informações de um detetive muito confiável, pareciam gatos, e dos grandes. Godô, assim quis ser chamado o cavalinho, não falhava e levava-me na direção certeira daquelas pulguentas. Com minha arma a laser matava todas. Em minutos, a Praça da Ordem transformou-se num tapete preto, forrada por aqueles insetos nojentos que jaziam inertes.

Em seguida fomos à caça das ratazanas. Aí a coisa ficou complicada... - Godô, e se aquelas ratazanas do tamanho de um gato, não forem ratazanas e sim gatos? Sou míope, aqui de cima não consigo distinguir...
- Então é melhor deixar pra lá. Na dúvida não atacaremos!
- Tá bem. Agora vamos atrás das moscas que pousam nos salames todas as quintas feiras. Iniciamos uma nova batalha exterminando todas as moscas do pedaço, que acabaram fazendo parte dos cadáveres junto com as baratas.

- Terminamos Godô?
- Agora vem a parte mais difícil: combater as loucas tarântulas que invadem a casa da professora, enquanto ela protege nos braços, seu maior tesouro.
- Ah não! Morro de medo de tarântulas. Ainda mais quando são cabeludas e maiores que uma raposa. Não vou!
- Não me decepcione! Disse Godô, com a propriedade de uma experiente estátua que ganhou vida. Envergonhada, aceito o desafio. Voamos para casa onde as tarântulas atazanam. Com a coragem de uma guerreira acabo com todas num segundo. - Acho que podemos até extrair os pelos daquelas pernas cabeludas, fazer um tapete bem felpudo e vender na feirinha. O que acha Godô?
- São venenosas aquelas pernas. Melhor não arriscar!
- Então, acabamos a missão?
- Claro que não! Tem outros animais urbanos extremamente perigosos para combatermos.

De repente a lua, que apesar de nova no momento, por encanto ficou cheia, e de metida que é, invadiu meu quarto por uma fresta deixada por descuido na cortina. Escandalosamente, deixa o ambiente em tom prata e num sussurro indiscreto me faz ver que é um sonho...
Ou será que Godô, usando de seus truques mágicos, me dispensou da última missão e gentilmente me trouxe até aqui voltando a fingir-se de estátua?!

Ferdinanda Embrião.

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Sorte do Cavalo.

Não, nunca tive muita sorte mesmo. Acho que ela foge de mim. Ah, não é nada disso! Refiro-me a sorteios ou votações para escolha de algo. Isso foi comprovado na última oficina de crônicas na Fundação Cultural.

Primeiro fizemos um trabalho de laboratório, isto é, passear pela Praça da Ordem pesquisando, olhando a feirinha e o movimento em busca de inspirações. Tarefa agradável! Noite quente. Acolhedora. Risonha. Enfeitada pelas mais diversas e inusitadas figuras. As imagens e idéias pulavam em minha frente como crianças sapecas.

Com o entusiasmo de principiante e a discrição de um detetive de comédia americana, observo tudo em volta. Olho o cavalo que não sei por que chamam de babão se nem sempre ele baba. Naquela noite por exemplo não babava, talvez por pura revolta. Isso fazia que parecesse mais, muito mais bocudo e dizendo palavrões. Aliás, nunca soube direito se aquele troço é um cavalo ou um burro! -Vocês sabem? Mas vamos combinar: existem sábios burros da espécie equina, e muitos humanos que se acham sábios e são... Bem, melhor deixar prá lá. Fiquei olhando a escultura. Que cara assustadora! Aquele ser pétreo parecia estar puto da vida e impossibilitado de chutar qualquer balde, por ter sido colocado, pela ironia do destino, em condição de estátua. Imaginei-o fazendo um discurso: certamente falaria sobre o odor dos salames da banquinha a poucos metros de onde ele está plantado. Reclamaria da mosca sem vergonha, que depois de explorar coisas não mencionáveis por serem fétidas como cocô, pousou despreocupada naquelas iguarias avermelhadas. (cena testemunhada por um colega) Faria ponderações sobre a gordura trans contida nos deliciosos pastéis, fritos na hora em óleo poli multi reutilizado por inúmeras mais de mil vezes. -Adoro aqueles pastéis! E claro, faria um belo discurso. Conquistaria votos para alguma eleição, ou pelo menos os ouvidos de alguém por alguns minutos. Coisas que comigo não acontecem.

Pois é, terminando a pesquisa retornamos a sala de aula. Depois de alguns leros (leros importantes!) a professora decidiu fazer uma votação para escolher o nome do nosso blog. Entre vários listados, sugeri Livre Mente que a meu ver, significa a liberdade para criar e expressar. Adivinhem se a sugestão teve algum voto... Pois erraram! Teve dois: o meu e o de uma colega. Ah! Mais um episódio ratificando minha tese: alguém falou que Livre Mente soava coisa de maconheiro!!! Enfim, o nome escolhido foi: Da Boca do Cavalo. Ainda bem que a maioria acha que a estátua é um cavalo, pois senão ficaria: Da Boca do Burro. (Burro sábio é óbvio)

Se eu fosse candidata a algum cargo, teria apenas o meu voto. Isso se eu mesmo, por compaixão, não resolvesse votar em outra pessoa pouco sortuda.
Mas vamos ficar atentos, sempre ouvindo o que o cavalo tem a nos dizer.


Ferdinanda Embrião