Blog dos participantes da Oficina Crônicas: entrevistas com o cotidiano do Setor de Literatura da Fundação Cultural de Curitiba - 2010.
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domingo, 25 de abril de 2010

Visita à UTI

Sigo entre os corredores do hospital, passo pelos seguranças e recebo um adesivo de identificação que coloco de modo robótico em meu peito. Continuo a caminhada que finda em um corredor monocromático.
No corredor monocromático existem doze pessoas e cá estou entre elas velando o silêncio.O nosso grupo é dividido em duplas que procuram consolar-se conversando sobre fé em Deus e fazendo orações,porém, alguns optam por isolar-se falando ao celular, lendo os avisos nas paredes,ou, andando de maneira inquieta nessa curta passarela.
Depois de quinze minutos surge um homem de uniforme verde no corredor monocromático, com uma lista ele anuncia o nome dos pacientes e confere o nome dos visitantes. Abrem-se as portas e lá vamos nós aos nossos trinta minutos de encontro com o amor excessivo, com o medo da perda,com a alegria, com a desolação.Trinta minutos de beijos e abraços infindáveis, de lágrimas e segredos nunca revelados.Trinta minutos estrondosos de vida que ecoarão em nossas frágeis estruturas.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A casa de Joana

- Aí que mora a Joaninha?
- Sou eu! Entre e fique à vontade.
Joaninha desfila de lá para cá de salto alto e lingerie vermelha, enquanto finaliza a maquiagem frente ao espelho. De repente, aproxima-se e sussurra para eu a esperar no quarto.
Por que será que o apelido dessa mulher é Joaninha? Imagino que seja pelo bumbum avantajado. Mas... que mulher estranha, move-se igual uma travesti.
E lá vem Joaninha toda espalhafatosa para despertar-me dos pensamentos e tirar-me da letargia:
- Então, meu bem... qual será a posição?
- Posição?
- Sim meu filho! De ladinho, de costas?O que vai ser?
- E vê se escolhe logo, tá! Em seguida, tenho outro cliente com hora marcada, viu!
Que mulher insensível!
Sexo mecânico! Termino, bato as calças, entrego-lhe o dinheiro e sigo para casa onde encontro a minha digníssima esposa deitada na cama ao lado do nosso pequeno. Aproximo-me e a beijo suavemente, ela acorda e esbraveja:
- Vai dormir na sala, aqui não há lugar para você!
Há oito anos ela tornou-se desafetuosa! Na verdade, desde que o nosso filho nasceu é assim: eu bato as calças, coloco as calças, tiro as calças e durmo em minha casa ou em outra casa qualquer, com minha esposa ou qualquer outra, mulher insensível.