Blog dos participantes da Oficina Crônicas: entrevistas com o cotidiano do Setor de Literatura da Fundação Cultural de Curitiba - 2010.
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domingo, 7 de novembro de 2010

A Fuga das Palavras.

E as palavras fugiram por uma porta mágica. Palavras. Palavras. Palavras. Metáforas, anáforas. Palavras ambíguas, elípticas ou quadradas. Palavras equívocas, fugazes, espontâneas. Tristes, vivazes. Palavras livres, soltas, coloridas. Palavras iluminadas, iluminantes. Com o brilho das estrelas. Alegres. Emocionadas. Com tons musicais. As vezes magoadas. Escritas com ódio, com amor, com saudade. Macias, violáceas. Doloridas, amenas, púrpuras, cantadas, encantadas, dançantes. Críticas. Cacofônicas irritando. Irônicas. Tiranas. Risonhas. Gargalhantes. Em lágrimas. Estou com muita vontade de poder alcançá-las. De ouvi-las gritar. Ou de ouvi-las sussurrar de um jeito morno... Duras. Suaves. Doces. Serenas. Amigas. Palavras, por favor não fujam para tão longe, pois assim não consigo escrever...

Ceres

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Vem Brincar Comigo...

Um sono profundo apaga seu olhar e imobiliza seus movimentos. Parece sonhar esboçando um sorriso. Não consigo me afastar; quero estar bem perto admirando a serenidade que toma conta do seu adormecer. E como você fica lindo assim inerte!

Uma paz infinita invade o ambiente. O silêncio compactua com esse momento, porém não de forma tranquila. Sussurros discretos ao redor desconstroem todo o sossego. Por que não calam essas vozes murmurantes? São irritantes. Quero é gritar seu nome e lhe mostrar no espelho o seu rosto angelical. Como está bonito com essa roupa nova, camisa azul celeste da cor que sempre gostou.

Mas é apenas o final da tarde o sol ainda não se foi. Tão cedo ainda, por que você já dorme? Acorda! Vamos ver o sol caindo por detrás do mundo e dourando as nuvens em forma de leão... Acorda e vem brincar comigo! Não vou mais mexer na sua coleção de carrinhos, e você tem que conhecer Lili, minha última boneca... Ah já sei! É a sua caminha nova, toda coberta com flores cheirosas e aquecidas com as luzes dessas lindas velas. Deve ser macia e lhe fazer feliz... Sua face expressa tanta alegria; depois quero saber tudo o que sonhou.

Agora um sino tange e todos se aproximam. Parece que desejam levá-lo para outro lugar... Vem um adulto, me toma nos braços e afasta-se comigo. Mas eu queria tanto ficar só mais um pouquinho perto de você. A noite nem chegou; ainda tem alguns raios de sol brilhando nesse fim de dia.

Prometo que amanhã, eu fujo e volto. Sem ninguém perceber vou acordá-lo, e nós vamos correr bem longe; lá naquele campo com gramado verde...

Ceres.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

COMO SE CHAMA?

Não sei exatamente o que é. Impossível conhecer com profundidade, pois sendo única manifesta-se de formas completamente diferentes. Diria que não é bipolar e sim multipolar. Queria ter a capacidade de entender essa energia forte, intensa, quente, feroz e ao mesmo tempo sublime, altruísta e acolhedora. Penso que todo o ser vivo nasce com esse potencial. Infelizmente em nome desse sentimento e por compreende-lo de forma equivocada as pessoas fazem as maiores loucuras.

Essa idéia parece não fazer sentido, pois sugere forças antagônicas. Mas acredito que tais atitudes loucas, são maneiras distorcidas e psicopatas da manifestação dessa energia, que ao brotar em alguns, os induzem torná-la a defesa de uma causa e transformar um outro nessa causa. Assim aprisionam e tornan-se prisioneiros, e muitas vezes numa explosão de ciúme, comentem os chamados crimes passionais. Tudo em nome dessa mesma energia.

Essa mesma energia, faz com que cada ser tenha forças para viver, e levante-se a cada manhã em busca do pão de cada dia, para suprir as necessidades daqueles que protegem. E esse movimento move o mundo no sentido econômico se o colocarmos numa macro dimensão elevado a uma enésima potencia.

É essa mesma energia que embeleza, liberta, provoca sorrisos e lágrimas tornando a vida mais doce, mais amena. É essa mesma energia da abnegação, do estender da mão, da solidariedade. É essa mesma energia do coração acelerado; da respiração ofegante; do brilho no olhar; das juras eternas; da espera; do encontro; dos lábios que se buscam e unem-se. É essa mesma energia que promove a famosa e nobre vitória do mais esperto espermatozoide chegando em primeiro lugar no disputado óvulo.

É essa mesma energia que faz cada flor exalar um perfume, e vestir macios tons coloridos tentando atrair insetos que disseminem seus pólens perpetuando suas espécies. É essa mesma energia que provoca o cio da terra e dos animais.

Como considerá-la mortal se a cada dia se renova em algum lugar? Quem já a sentiu jamais esquece sua força imensa, mesmo que o tempo passe e ela enfraqueça. Pode até renascer com mais vigor, de uma nova maneira, por outro alguém num outro além, mas certamente essa mesma energia permanece até o infinito. E é infinita porque impregna-se na memória, pois pode-se mudar constantemente, mas esquecer jamais...

Não estou conseguindo lembrar o nome dessa seiva tão poderosa. Você pode me ajudar? Só sei que é a mesma energia que emerge no seu coração, quando a noite você olha seu pequeno filho no leito, com as faces coradas, entregue ao sono dos justos, depois de aprontar todas as travessuras durante o dia. Como se chama mesmo essa energia? É a mesma energia que...

Ceres.

domingo, 24 de outubro de 2010

...E TERNA, MENTE ETERNAMENTE

Lembro-me como se tudo tivesse acontecido amanhã. Era um belo dia estrelado e enfeitado pela lua cheia de ser lua. O mês se não me engano era abritubro, mas o dia era trinta de fevereiro de algum ano qualquer. Você vinha, eu ia e nos encontramos na esquina da rua inexistente, naquela chuva copiosa, com o sol escaldante na escuridão da noite.
O outono cobria tudo com flores frescas e refesteladas. Nossas pupilas encontraram-se e brilharam muito. Quase incendiaram o planeta. Então você me disse com a ternura de um eterno embriagado: -Enfim encontrei a musa que sempre procurei! Estonteada de felicidade, pois um pouco antes também havia ingerido vários copos do néctar dos deuses respondi: - Parece um sonho - esfregando os olhos continuei. - Saí em busca do meu horizonte e encontrei você, na vertical bem na minha frente! Depois de um longo e ardente beijo, de mãos dadas caminhamos em direção ao nada, pois nada mais importava além dos nossos dedos entrelaçados e de nossos corações descompensados. E assim começamos correr, correr, correr e quando percebemos já não corríamos, mas voávamos. -Para onde voamos? Perguntei.
-Voamos até o infinito elevado a enésima potencia do absoluto absurdo!
-Não entendi nada, mas vou para onde você me levar... Conhece o caminho?
-Nenhum caminho. Mas pare de falar e sinta o aroma inebriante do silêncio. Ouça o brilho das estrelas que já se apagaram. Veja o colorido som dos crocodilos.
-Mal nos conhecemos e você já me manda calar a boca?
-As mulheres falam demais. É por isso que toda a magia infinita é tão efêmera, e aquilo que penso sentir, se é que penso, pois nem sei se existo evapora-se de repente. É um sentimento frágil e tem vida breve, como chamam a chama.
- Hahaha! Quero só ver você encontrar outra aqui nessas alturas. Se bem que isso tudo está tão louco, que você pode até achar outra aqui nessas alturas, mas não que esteja á minha altura...
- Mulheres... Todas loucas.
-Pode ser, mas não é bom uma loucura?
-Mas as loucuras são imortais. Portanto, temos que tomar cuidado...
-Mudou a prosa agora? Mas que barulho é esse?
-Meu celular. Temos que voltar, pois esqueci que estava indo para a cerimônia do meu casamento quando nos encontramos. Minha ex noiva, gravidíssima, já está na maternidade com meus três pimpolhos no ventre. Eles estão nascendo. Mas ante... Preciso conversar com aquela anjinha de asinhas douradas que está sentadinha naquela nuvem. Talvez ela aceite aterrissar com a gente...
Ceres.

sábado, 16 de outubro de 2010

Situação de Emergência

No maior sufoco, morrendo de medo liguei para emergência, pois naquelas alturas do campeonato não havia outra saída. Certamente estaria segura, pois seria atendida pelos profissionais mais sérios e bem preparados da cidade.

Para meu alento, do outro lado da linha inicia uma suave musica clássica de fundo... Interminável... Enquanto uma voz eletrônica tranquila, pronunciava docemente: "procure manter a calma... Respire fundo... Tenha em mãos seu RG e CPF. Está certo que a situação é mesmo uma emergência? Calma... Você não está só... Vamos ajudá-lo..." E a odiosa, insuportável, torturante musica continuou por mais alguns segundos que para meu desespero pareciam horas. Finalmente alguém atendeu.

- Emergência! por favor diga seu nome e RG.
- Tem um ladrão entrando no quintal da minha casa!
- Seu nome e RG, senhora!
- Não lembro do RG. Só um pouco, pego já na bolsa - documento em mãos. Número murmurado com voz tremula. -Venham rápido estou com muito medo!
- Seu endereço... Pânico total. Endereço disparado como um raio.
- Tem certeza que se trata de um ladrão?
- Claro! Ele já pulou o muro e está dentro do quintal...
- Será que não se trata de uma brincadeira de algum amiguinho de seu filho?
- Não tenho filho, e se tivesse ele não teria amigo filho da puta para pular o muro!
- A Senhora está muito nervosa... Seu marido está em casa?
- Não!!!!
- Veja bem Senhora, estamos sem viatura no momento. Pela sua história parece ser só um ladrão de bugiganga ou de galinhas. Não deve ser violento. Com certeza ele não vai fazer nenhum outro mal, além de roubar algumas coisinhas do quintal. Só podemos atender emergências urgentes mesmo, tipo assassinatos ou assaltos.
- Moço, não tem bugiganga e muito menos galinhas no meu quintal! Estou vendo pela janela... Ele parece perigoso sim, e não está sozinho... Estão em dois e se aproximando de casa...
- Mantenha as portas fechadas. Fique calma. Ligue para algum vizinho, pois é nessas situações que a gente vê quem são os bons vizinhos mesmo. Como já expliquei para a Senhora, vou repetir e trepetir se for preciso: estamos sem viatura. Não temos como ir até aí.
- Não precisam mais vir moço! Tenho uma arma com silenciador em casa e enquanto o Senhor falava asneiras, matei os dois. Podem ficar tranquilos e amanhã vocês recolhem os corpos.

Menos de cinco minutos depois havia duas viaturas da policia em frente a minha casa, e vários policiais. Chegaram a tempo de prender os vagabundos em flagrante. Depois de desarmá-los e algemá-los, um dos homens sérios responsáveis pela segurança dos cidadãos de bem, perguntou solenemente com ar de repreensão: - A Senhora não disse que tinha matado os ladrões? Sabe as consequências de dar um alarme falso para autoridades?
- E o Senhores não tinham afirmado que estavam sem viatura?!!!

Ceres.

domingo, 10 de outubro de 2010

Frases Feitas e Desfeitas.

Saí para matar o tempo mas alguém já tinha feito o serviço. Então, desapontada chovi no molhado, naquele solo devastado pela águas abusivas, que invadiram a cidade no silêncio da noite que se vestia com o ar glacial.

Não encontrei a pessoa que estava colhendo a tempestade nascida do vento que um dia havia semeado, mas me dei conta de outros fatos sem importância que agora divido com você. Divido não, empurro pois são coisas insignificantes que não interessam a ninguém e de tão repetidas estão desgastadas.

Devemos sorrir sempre, a vida é bela. Olhe para as favelas. Olhe para as crianças famintas de todos os cuidados, paradas nos sinais. Tão abusadas e abusivas tentando roubar alguém. Perceba quanto ódio existe naqueles olhos infantis. Infantis aqueles olhos?! Veja na rua de cima as prostitutas ainda meninas que oferecem seus corpos em desenvolvimento. Um esperto lucra com esse doce comércio. Sim, a vida é bela, sorria! A esperança é a última que morre, pois você sempre perece antes. E a senhora esperança gargalha de sua fé dizendo num sussurro zombador: otário! Isso é clichê, quem espera nunca alcança.

O que vale é a beleza interior. Claro, desde que seja o interior de uma mansão decorada com quadros valiosíssimos, tapetes persas e lustres de cristais. Agora, se você for pobre, careca, baixinho, obeso e mal vestido o ditado não lhe cabe mesmo que o senhor seja genial e tenha uma alma generosa. A falta de dinheiro nunca traz felicidade. Nem pense em ser feliz com um salário mínimo, morando num subúrbio, cinco filhos em volta e um aluguel para pagar. As luzes? Já cortaram há muito tempo. Principalmente aquelas do final do túnel. A escuridão é total e não há saída. O trem se aproxima e vai esmagar tudo o que estiver na frente.

Não diga com quem anda, pois ninguém quer saber quem é você. Essa verdade é sua apenas e deverá ser escondida. Macaco velho e colocou a mão na cumbuca? Vencido pela fome, pelo ódio enganado foi enganado e engaiolado. Feito o bem. Bem feito?

Vendo bons conselhos. Tenho aqui na minha bolsa ótimos, fresquinhos. Faço descontos especiais. Aproveite! Devagar não se vai longe, então pare de vagar. Ande rápido, corra. Nunca faça o eu digo e jamais faça o que eu faço. É loucura! Brinque com fogo para se queimar e queime-se muito. Aja. Não pense. Pensar o que? Pensar por quê? Aja sem pensar. Aja, mesmo que seja sob um comando insano. Não pense, não reaja. Aja...

Não tinha sementes de girassol, então plantei um gira sol e entrei numa fria, pois nasceu um gira lua. A chuva encobriu a lua e a flor morreu por não ter a quem seguir. Morreu afogada.

Olhe o trem... Está próximo, está chegando, apitando. Vai comprimir tudo. Estraçalhar todos nesse túnel sem saída.



Ceres.



domingo, 29 de agosto de 2010

Escrever. Escrever?

Ainda sou aprendiz no campo literário. Às vezes olho com mal disfarçada inveja, no bom sentido, para pessoas que dominam essa arte. São como mágicos, transformando estímulos visuais em pinturas fantásticas ou em fotografias admiráveis usando simples palavras escritas, enfeitadas com metáforas ou outros recursos linguísticos. Os acontecimentos banais são convertidos em crônicas rítmicas, coloridas, bem humoradas e recheadas de deliciosas ironias nas entrelinhas.
Tem dias que ouço minhas vozes interiores gritando e questionando: - quando você vai fazer isto com desenvoltura? Por que ficar travada sem deixar com que as idéias fluam? Claro que tento sempre silenciá-las com desculpas esfarrapadas alegando a falta de tempo, um bloqueio emocional, os programas políticos, os políticos, a eterna crise econômica, a monotonia. Ou procuro calar o torturante interrogatório inventando uma emocionante estória sem pé nem cabeça: enquanto dormia, uma bruxa malvada entrou nos meus pensamentos e roubou-me a fantasia; roubou-me a poesia; roubou-me também a ironia e toda a capacidade de criar. Então definitiva e dolorosamente concluo e confesso que nem mais aprendiz sou, simplesmente não sei escrever. Culpa da bendita bruxa sinistra.

Ceres.

sábado, 21 de agosto de 2010

Rupturas.

Ambrósia arrancou as amarras burlando bravamente cláusulas clássica. Cantarolou crítica contrariando costumes. Depois discorreu desafiando dogmas. Extasiada, espiou estrelas esplêndidas. Fascinada fantasiou feliz, galgando galáxias. Gestos hábeis, hipnóticos, incógnitos indicavam jeitosos jogos jocosos. Luminosa, livre, leve mergulhou mágica magistral nas nuvens nascendo novamente. Ousada, objetou objetiva preceitos, praxes, preconceitos.
Questionou quocientes. Rompeu receptáculos rigorosos. Suntuosa somou talentos transcendentes. Ultrapassou ultimatos usurpadores. Usou velozes variáveis xeretas zerando zumbidos zombadores. Alforriada amanhece bailando. Brilha; canta delicadamente. Eu encantada espreito...

Ceres.

domingo, 2 de maio de 2010

Tempos e Momentos

Fiquei por um momento observando aquela criatura sentada na minha frente.
Ela chorava. Chorava. Seu corpo estremecia como um trigal dourado, ao vento. E as lágrimas eram intensas. Uma tempestade de verão, com direito até a relâmpagos. Mas eram verdadeiras. Autênticas.

Ofereço-lhe água num copo descartável. Tomou sôfregamente todo o conteúdo.
Era ainda um botão de rosa. Nem entreabrira por completo. Mal treze, se é que treze. Mas as lágrimas eram autênticas. Verdadeiras.

- Respire fundo. Isso... Agora, me conte com calma o que aconteceu.
- Ele. Ele me deixou... Diz entre soluços.
- Ele deixou você? Mas por que?
- Deve ter outra. Sempre desconfiei que estivesse me traindo.
- Ah! Você acha que está sendo traída...
- Tenho certeza, ele tem outra! Senão não terminaria tudo depois de tanto tempo...

Olho aquela menina que mal apresentava vestígios de uma moça. Rosto ainda de criança, e o corpo delineava um esboço suave de mulher. Não sei exatamente onde nem como. Mas as lágrimas eram autênticas.

- Quanto tempo vocês ficaram?
- Nós não estávamos ficando. Já era namoro mesmo!
- E há quanto tempo vocês namoravam?
- Há muito tempo. Foi quase uma vida!
-Uma vida?! - Pergunto olhando aquele ser em plena metamorfose. Achei que estivesse me zombando. Mas vi que as lágrimas eram verdadeiras.

-Uma vida sim. Muito tempo.
-E quanto tempo?
-Uma semana...

Fiquei furiosa. Por um momento tive vontade de dizer para aquela menina, que eu tinha mais o que fazer. Já estava pronta para iniciar meu discurso, perguntando o que ela sabia ou pensava da vida. Afinal, o que representava uma semana naquela vida de no máximo treze anos? Olhei novamente para ela. As lágrimas eram autênticas. Doloridas. Copiosas. Verdadeiras.

Em tempo lembrei que eles, estes seres estranhos, são atemporais. Claro, o tempo dela é muito diferente do meu e tem outro significado. Contendo a raiva digo:

- Deve estar sendo muito difícil para você. Eu entendo. É complicado gostar de alguém que não corresponde da forma como esperamos.
-Você é muito legal!
- Aconteceu alguma coisa mais séria entre vocês?
- Como? Tudo foi muito sério!
- Vocês tranzaram?
- Não. A gente estava esperando fazer um mês de namoro para comemorar com a primeira tranza.

Respiro aliviada. Não havia risco daquela garota estar grávida. Pelo menos por enquanto, uma gravidez adolescente a menos. As lágrimas já tinham diminuído. Mas eram autênticas.

- Então, de um tempo para você, querida. Procure sair com suas amigas. Esta dor vai passar.
- Já está quase passando. Você é muito legal. Ninguém me entende melhor que você. E se ele tiver outra, que se dane!
- É assim que se fala! Em primeiro lugar, você tem que se amar e se curtir muito!
- Mas você é um gênio. Te adoro!

Ela já está sorrindo, como se um sol acabasse de nascer naquela alma menina. Mas as lágrimas, aquelas lágrimas, eram autênticas.
Finalmente levanta-se e anda para a saída. Está sorrindo muito, com apenas um vestígio de choro no canto dos olhos.

Quando abro a porta liberando a garota, vejo um menino sentado num banco a minha espera.
Talvez quatorze, se é que quatorze. Olhando em minha direção, nem percebe a presença daquela garota. E disfarçando as lágrimas, contidas mas autênticas, diz timidamente:

- Preciso muito falar com você! Preciso de sua ajuda! Pode ser agora?

E dos olhos da menina que já sorria, despenca outro temporal estrondoso.

- Então a outra é você?!!! Eu te odeio!!!

Mas as lágrimas eram autênticas. Verdadeiras.



Colibri Inquieto

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Viver é Prejudicial a Saúde.

- Cuidado! A panela de alumínio faz mal a saúde.

Com a melhor das intenções uma amiga me deu o alerta. - Quando você enxuga uma panela de alumínio com guardanapo ele fica cinza, não fica?
- Acho que fica...
- São as substâncias tóxicas do pó do alumínio.
-Tudo bem. Essas panelas estão velhas mesmo... E essa teoria de que "panela velha é que faz comida boa", está ultrapassada.

Com dor no coração jogo todas as panelas de alumínio no lixo substituindo por teflon. Meu armário ficou uma gracinha. Todo arrumadinho. Todo pretinho com panelas novinhas em folha. Algumas semanas depois, a mesma amiga me telefona dando a noticia: - Você sabia que o teflon é cancerígeno?
- Não diga! Mas logo agora que troquei todas as panelas?
- Soube a semana passada num congresso: teflon é um composto de polímeros de fluocarbono.
- Poli fluo o que?! Fale tudo de uma vez o que faz mal a saúde, e eu substituo de uma pancada só a cozinha inteira se for preciso!

- O microondas!
- Mas por que? Ele me ajuda tanto. Dele não abro mão. Nem venha!
- Disseram que os alimentos colocados no microondas, são submetidos repentinamente a um calor brutal por vibrações térmicas. Assim nascem os radicais livres que afetam até as funções cerebrais. Entendeu?
- Não, mas você falou tão bonito que nunca mais vou usar o malvado. E se ele afeta as funções cerebrais, podem me deixar gagá. Não quero correr este risco. Vai virar enfeite...

- Tem mais...
- Mais ainda? Fala... Prendo a respiração para ouvir.
- O papel filme é um grande vilão!
- Aquele papel, ou melhor, plástico fininho, bonitinho com cara de gente boa que me ajudava a proteger os alimentos?
- Sim, ele mesmo!
- Santa Genoveva! O que mais faz mal?
- A panela de pressão!
- Ah, para vai...Vamos deixar de falar em panelas.

- Além das panelas, o telefone celular é um grande malfeitor.
- Então conte tudo. Mas espere um pouquinho, vou sentar de um jeito mais cômodo. Pronto.
- A camada do ôzonios está praticamente destruída.Temos que fazer a nossa parte não usando mais desodorantes ou perfumes.
- E o que tem a ver meu desodorante com essa tal camada de ozônio?
- É um aerosol que contribui para a destruição dessa camada que funciona como um filtro. Aerosois são uma das causas do efeito estufa pois penetram na estratosfera e...
- Ta bem. Vou jogar fora meus perfumes e desodorantes.

- Ah! Já ia esquecendo: higiene em excesso também é prejudicial!
- O que?!!!
- Sim, temos que dar ao nosso organismo a oportunidade de criar resistência. Com muita limpeza tiramos essa propriedade do corpo.
- Hã... Então só nos resta andar sujas, sem desodorante e nos tornar adeptas da dieta da luz. E de preferência num lugar bem isolado do planeta onde ainda exista a tal camada de ozônio...

- Você adivinhou meus pensamentos! Quando começamos?

Faço de conta que a ligação caiu e não atendo mais o telefone. Bendita seja a identificação de chamadas, que até agora ninguém disse que faz mal a saúde!


Colibri Inquieto